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27 setembro 2005

Príncipe das águas claras

Ele a via passar compenetrada. Observava os seus movimentos alongando-se, esticando os braços e relaxando o pescoço, no canto, tentando não ser notada. Resoluta, entrava na piscina, olhos no relógio, cronometrando os tempos: dez minutos de crawl, mais dez de perna, outros ainda de braço e, nos dez finais, cada vez um mix diferente.
Um dia, puxou conversa. Ela deu um sorriso. Simpática, trocou algumas palavras, mais por gentileza que por vontade mesmo. Não gostava de ser atrapalhada durante o treino.
Depois de um certo tempo ela já o cumprimentava, sempre um sorriso no rosto. Passou a ter mais coragem. Sentia-se mais jovem, mais vigoroso, mais estimulado quando ela estava lá. Tomou coragem: 'vc ilumina tudo quando chega'. Ela sorriu. Agradeceu. Disse que ele era muito simpático.
Trocaram nomes, trocaram outras palavras. Por vezes ela sumia, dias, semanas. Mas ele ia sempre, esperando. Esperava.
Da última vez, depois que ela sumiu bem umas duas semanas, ele criou coragem. E lhe disse tudo. Perguntara sobre ela aos outros rapazes que nadavam ali, habitualmente. 'Hoje, depois do treino, o xis salada é por minha conta'. Ela sorriu, agradeceu polidamente. 'Vamos nadar que eu tenho hora pra chegar em casa'...
Ele se alimenta dos seus sorrisos.

Jogar o jogo

Estou lendo um livro chamado Homo Ludens, de Johan Huizinga, para a disciplina que curso lá na Antropologia, na FFLCH. Ainda no comecinho, mas fala sobre o papel do jogo na vida, nas culturas.
Andei pensando esses dias sobre certos jogos que sempre tive dificuldade de jogar. O jogo do trabalho, do ambiente de escritório, das formalidades jurídicas (como chamar aquele seu ex-colega de turma de 'excelência', como se ele fosse mais excelente que vc só porque virou juiz) , da sedução, das vaidades acadêmicas, do toma-lá-dá-cá, das competências profissionais.
À medida que amadureço percebo que preciso aprender a jogar esses jogos para sobreviver com menos sobressaltos e menos sofrimento. Sempre fui bocuda, 'falo o que penso, faço o que eu quero'. Essa característica minha tem como conseqüência uma dificuldade de jogar esses jogos.
Me falta malícia, mentirinhas bem colocadas, jogo de cintura para lidar com os clientes. Me justifico demais. Explico demais. Dou satisfações demais. Em todos os campos da vida. Isso sempre me trouxe sofrimento. Um gasto desnecessário de energia com situações por não saber lidar com elas.
Mas sinto que alguma coisa está mudando (aliás, muita coisa mudou desde a minha internação no ano passado). Talvez porque eu tenha finalmente aprendido a me dar o meu devido valor. E percebido que a gente paga preços por, principalmente, falar tudo o que pensa.
Ando (percebam que é para os padrões emilianos, heim?) mais comedida, menos bocuda (não deixei de falar asneira, nem de dizer o que penso - eu sou muito boneca de pano mesmo, sou a própria Emília que tomou uma pílula - mas tenho me controlado mais...) , mais quieta no meu canto, mais dona de casa, estudiosa, concentrada.
Estou aprendendo a me preservar e a respeitar meus desejos, meus silêncios, minha vontades. Não me violento mais. Para mim, aprender a jogar determinados jogos tem sido um sinal de maturidade e a perspectiva de menos sofrimento. Com o tempo, espero ter a sabedoria de saber quando jogar a sério, quando jogar brincando e quando, simplesmente, jogar o tabuleiro pra cima e derrubar todas as peças...

26 setembro 2005

é pra isso que eu leio tanto?

Resultado: 25 pontos

Eu tenho um excelente vocabulário.


Teste Seu Vocabulário.

22 setembro 2005

Como estragar meu dia em 15 lições - parte 1. Manhã

1 - aquele cliente que nunca me paga no telefone. em pleno domingo. às 8 da manhã.
2 - a rádio municipalista de Botucatu, PRF8, no último volume (ah, mamãe querida!). qualquer hora da manhã.
3 - todo meu pão acabou. também não tem torrada. nem granola. nem uma mísera fruta. por vezes, sequer leite.
4 - a faxineira não veio.
5 - são 9h15 e eu acabo de me levantar. aquela reunião começa às 9h30. hoje é meu dia de rodízio. e estou sem dinheiro para pagar um táxi.

Gravidade zero

Em meus devaneios existenciais, de uns tempos pra cá, venho incluindo também a água. Especialmente quando estou na piscina, a mente concentrada no exercício, em dar a braçada correta, na respiração... de repente, vêm devaneios aquáticos...
Sempre tive um relacionamento muito bom com a água. Fui educada nas piscinas ao mesmo tempo em que na escola. É para mim um meio natural, que eu domino na medida do possível, e em que me sinto bem, tranqüila, sossegada.
A água desliza pela pele, nos dá leveza, nos envolve e nos acaricia. Conseguisse prender um pouco mais a respiração, ficaria um tempão ouvindo o silêncio do fundo da piscina.
Sinto um conforto muito grande na piscina - e também quando como arroz com feijão (e já escrevi anteriormente sobre os dois temas aqui). Não dizem por aí que a piscina é boa para os bebês porque os leva de volta pra barriga da mamãe, pra proteção e sensação de felicidade? Talvez isso explique o meu gostar.
Há dias em que estou mais preguiçosa; ao invés de nadar de verdade, fico brincando, dando 'viradas' ou simplesmente atravessando a piscina de um lado pra outro sem disciplina, ora um nado peito desajeitado e molenga, ora 'minhocando' ou 'borboleteando', braços jogados ao longo do corpo, sem pressa e sem compromisso.
Nesses meus devaneios de fluido azul clorado, presto atenção à textura, à sensação que me causa a água no corpo.
Só na água consigo flutuar estando em terra.

21 setembro 2005

O próximo capítulo...

... da emocionante história de hp:

(no último episódio [voz do locutor do "Jambo e Ruivão"], hp, o Homem-Palhaço entrou de sopetão na minha vida e em uma semana saiu comigo umas 4 vezes e me convidou pra passar o reveillòn com ele. de repente, desapareceu! o que terá acontecido a hp? estará vivo, morto? ou escrevendo sua qualificação de mestrado com um mês de antecedência e se comportando feito uma criança de 12 anos de idade? vejam após os comerciais....)
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pausa para os comerciais
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hp estava em casa, e mandou o pai dizer que não estava. mas eu ouvi a voz do infeliz, ao fundo. eu simplesmente não podia acreditar! aquilo realmente ultrapassava a minha capacidade de agüentar cavalices, quer dizer, palhaçadas masculinas.
eu disse ao pai, então, que sabia que ele estava lá, que não tinha feito nada pra ele me tratar assim. e mandei chamar. o pai engasgou, tossiu, pensou uns 5 segundos e disse 'não, ele foi na padaria, já volta. eu aviso que vc ligou' (palhaço).
ligou de volta em menos de 5 min, o palhaço. ah, nem lembro mais o que falei pra ele, perguntei quantos anos ele tinha (29. bem, e a idade mental, nenê?), falei que era mal educado, etc, desci a lenha. achei o fim. a história não é exatamente divertida, mas me tirou do sério (risos).
hp me disse que ele tinha que escrever a qualificação de mestrado dele para depositar dentro de um mês - nisso eu acredito. então, surtou e resolveu não atender mais o telefone. ahã, claro. ah, tá. humhum. não tá atendendo nem os amigos?!?! nossa, é mesmo?!!?!
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o fato é que, depois de muitos anos de prática, estou acostumada com homens que desaparecem para não dizer na sua cara que não querem mais sair com vc. o último foi uma pessoa com quem eu estava namorando - atenção, namorando mesmo -, nos víamos umas 3 vezes por semana, a gente já tinha uma rotina (aliás, tivemos uma rotina desde o primeiro dia, praticamente - Freud explica) e tudo, e de repente o palhaço fica 4 dias sem me telefonar. 4 dias!!!!!!!!!
ora, desaparecer depois de um ou dois encontros com cara de 'estamos ficando', etc, vá lá, a gente já se acostumou (estamos até começando a usar a tática também... risos... ainda vão sentir na pele como é...) mas desaparecer porque não consegue acabar um namoro.... isso não dá!
parafraseando diriam Didi Wagner e Marina Person...*: homem maleducado não dá!!! namorado que desaparece não dá!!!!!!!!


*balela MTV

O emilianas comemora a marca das 2000 visitas! Eeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!

Obrigada, visitantes freqüentes e passantes desavisados!

18 setembro 2005

Terezinha de Jesus

Aproveitando conversas inspiradas no blog Homem é tudo Palhaço, cujo link se encontra na nova barra de links aí do lado esquerdo, conto a história do homem mais palhaço que tive o desprazer de conhecer na minha vida de moça namoradeira:
primeiro dia: conheci o hp (homem-palhaço) e ficamos logo de cara.
dia seguinte: hp me telefonou e me convidou pra sair. saímos.
terceiro dia: hp veio na minha casa, abriu minha geladeira e enfiou cervejas nela sem a menor cerimônia*, além de tirar os sapatos e se comportar como se estivesse no circo.
quarto dia: hp me chamou para uma balada com os amigos dele: me apresentou aos amigos, tivemos uma ótima noite, divertidíssima, eu cantei (sim, eu canto, e bem!), ele cantou (o miserável também canta bem) e tudo parecia ir às mil maravilhas.
quinto dia: hp me convida para passar o reveillòn com ele.
sexto dia: nem sinal de hp.
sétimo dia: o que será que aconteceu?
....
décimo-quarto dia: telefono para hp. hp manda o pai dizer que não está (eu posso ouvi-lo).

Aguardem o próximo capítulo....... :-)



*soa familiar? "o segundo me chegou/como quem chega do bar/trouxe um litro de aguardente/tão amarga de tragar/indagou o meu passado/e cheirou minha comida/vasculhou minha gaveta/me chamava de perdida"... Ah, Chico! (suspiros, uns cinco)

17 setembro 2005

Cara nova

Depois de tanto tempo sonhando em mexer na droga do template (configurações) deste bloguinho, finalmente consegui!
Como vcs podem ver, estou numa fase de cores bebê, rosinhas e pastéis... deve ser o chamado da mãe natureza... (risos)
Não sei se todo mundo vai gostar, mas eu estou vibrando com a minha incrível e insuperável sagacidade e capacidade de mudar as cores no html!
Quem visitar posts antigos ainda vai ver um pouco de laranja, mais de acordo com o esquema de cores anterior do blog: pra mudar, eu teria que ir post por post fazendo a alteração, e não tenho nem tempo nem saco pra isso.
Bem, eu só queria compartilhar a nova cara do Emilianas com os meus fiéis leitores, e também o fato de que agora temos uma barra de links para outros blogs que eu visito, de amigos ou não.
Agora só me falta conseguir botar lá em cima o cabeçalho lindo que o Calendas fez pra mim, que até hoje não consegui.... aí já é pedir demais do meu parco conhecimento de html.
Deixem suas opiniões!!!!!!!!

um post sobre tédio, chá e chocolate

Odeio frio. Acho até charmoso botar um sobretudo num dos 10 dias do ano frios o suficiente para isso; adoro cachecol e lencinhos para esquentar o pescoço, sobretudo agora que desisti das blusas de gola alta, nada apreciadas pelo sexo oposto; gosto de acordar quentinha debaixo do cobertor e de botar roupinha no meu Xulindinho, o cão (ele tem uma que quando põe fica a cara do Marcelo Anthony); adoro beber chá o dia todo, quentinho, preto, importado, ou pode ser um Mate mesmo que já tá de bom tamanho - mas não é tão chique; amo cappuccino, embora tenha bebido muito menos do que gostaria este inverno tentando não engordar; e claro, ADORO chocolate e tenho comido muito mais dele e de outros doces do que deveria.
Mas o frio me trava demais. Essa coisa de país tropical que não se protege direito do frio é punk. Há quem passe mais frio aqui do que na Europa e outros lugares muuuuuuuuito, mas muuuuuuuito mais frios. Tudo bem, temos menos meses de inverno e por isso nossa taxa de suicídio é mais baixa, mas um inverninho, mesmo tropical, deixa a gente (leia-se eu) mais deprê e com menos ânimo pra tudo, inclusive para as coisas mais básicas da vida como ir ao supermercado ou ir praticar exercício.
E eu, que já andava tirando sandália do armário e lavando as roupas de inverno pra guardar, graças ao verão antecipado que tivemos há umas duas semanas, fui pega de surpresa pela volta do frio. Não tenho vontade de fazer nada. Nada mesmo. Nem mesmo de me levantar da cama, se quer saber. Tenho feito as coisas porque as tenho tantas que não tenho opção a não ser fazê-las meio automaticamente. E olha que nem tem feito tanto frio.
Acho que o único efeito benéfico do efeito estufa é nos proporcionar um veranico em pleno mês de agosto. No verão a gente é mesmo mais feliz.

09 setembro 2005

Chorinho de camelo

A história do camelo chorão, em inglês, ou em português, Camelos também choram.
Emilia também chora, todo mundo chora (ou, pelo menos, os mais sensíveis) com a historinha do pequeno camelo que nasce no deserto da Mongólia e é rejeitado pela mãe (coisa comum, não só entre os animais, mas também entre as gentes) depois de um parto difícil, de 2 dias. Ele tenta mamar, mas ela não deixa. Pobre camelinho.
Mas o título do filme não se refere ao baby camelo, branquinho, que chora aquele chorinho de animal que todo mundo que tem cachorro conhece bem. Conto o porquê: depois de várias tentativas de aproximar o filhote da mãe, resolvem os nômades chamar um violinista de uma aldeia - distante um dia e meio de camelo do acampamento - para fazer um ritual.
O violinista vem. E toca violino. Uma moça do acampamento canta uma canção, enquanto faz carinho na camela. E a camela começa a lacrimejar.... É incrível! Parece que os camelos ficam hipnotizados com a música... A mãe camela vai se acalmando e finalmente aceita o filhote.
O filme foi indicado ao Oscar de melhor documentário, é realmente lindo, lindo.
É assistir e chorar junto com os camelos...

07 setembro 2005

Bingo

Dia desses, fui na casa de uma antiga empregada nossa em Botucatu, a Tê. Fui fazer uma visita (ela trabalhou mais de 15 anos na minha casa), pegar uma planta que ela botou no vaso pra mim, ver como ela está. Fui jogar bingo com ela e seus amigos, gente muito simples, praticamente da roça.
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A Tê teve um tumor detectado no pescoço há cerca de um ano. Fizeram biópsia, extraíram o caroço. Pelos exames, parecia ser uma metástase. Centenas de exames depois, não conseguiram achar o tumor principal.
O tumor no pescoço reapareceu. Foi sugerida cirurgia, mas com riscos (não sei ao certo quais, mas riscos graves. inclusive de atingir um nervo, acho eu). Ela optou por não operar.
Está se tratando com um médico naturalista, um curandeiro, não sei ao certo. É muito católica. Talvez aguarde um milagre.
Estes dias, quando estive lá, notei que o pescoço está inchando. Será impressão minha? Não sei, provavelmente não.
E o que é que a gente pode dizer? Temos direito de dizer alguma coisa? Só quero que ela esteja bem e, na medida do possível, tranqüila.
Jogamos bingo um tempão, quase até a meia-noite. Foi muito divertido. Mas depois veio uma tristeza.
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Se eu rezasse, pediria a Deus que ela não se arrependa da escolha que fez. Que não tenha dúvidas, jamais; que a fé que ela tem dê a ela força para ir em frente, sem olhar pra trás. Ela sempre foi muito forte. Construiu mais de uma casa, de verdade, levantou paredes, junto com o marido. Que ela permaneça assim, forte, sempre.
Olhar para um passado que desejaríamos diferente ou para um futuro que tememos pode trazer muito sofrimento. Que ela olhe, sempre, o presente.
Quanto a mim, só espero ainda estar presente muitas vezes ao presente da minha querida Tê.

Melhor que botox

Estou descobrindo minha própria Emilia. Ela se sente bem mais confortável no papel de professora do que no de advogada. Adoooooooora ser chamada de professora, não gosta de ser chamada de doutora (só vai gostar no dia que for doutora de verdade). Aos pouquinhos está virando professora mesmo. Agora, vai dar aulas num curso de capacitação. (eba!!!!!!!)
Os alunos da São Francisco a chamam de professora, e ela realmente adora. Não cabe em si, de tão feliz, ao enfrentar a turma com a aula preparada. Fala de boca cheia que está dando aulas.
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Porque será que demorei tanto pra entender uma coisa tão simples?...
Sempre admirei meus professores, muito mais do que admiro bons advogados ou bons juízes. Uma boa aula é um tesão. A reação da classe ao que vc diz é um tesão - principalmente se for uma reação boa (risos).
Estou me sentindo cada vez mais jovem ao lidar com pessoas mais jovens que eu, gente nascida em 1984 (!), cabecinhas fresquinhas, curiosas.
Acho que estou como naquele comercial de creme anti-rugas: vou começar a dar aulas aos 28 e acho que, logo logo, chego aos 25...

27 agosto 2005

outras conclusões (alguns minutos depois)

Antes que me xinguem de melodramática ou de ter autopiedade, ou qualquer outro eufemismo pra isso, vamos lá: o post abaixo é pra ser uma historinha mesmo. Embora tenha repercussões na minha vida hoje, já não tenho um envolvimento emocional significativo com o que aconteceu em 1995. Mas não posso negar que me causa problemas até hoje. E que minha vida profissional pode facilmente se prejudicar por causa de uma depressão ou de uma crise de ansiedade.
No mercado, hoje, não há lugar pra compreensão. Ninguém quer saber que merda aconteceu na sua vida que pode ter desencadeado aquilo. O que se espera de todos é que dêem resultado. No formulário de preenchimento da FAPESP não posso escrever: "repeti as matérias porque tive depressão". Ou: "tenho um problema de ansiedade que paralisou a minha vida profissional nos últimos 4 anos." Não há lugar pra isso.
Mas as merdas que eu fiz antes não significam que eu precise continuar fazendo. Hoje já consigo identificar o possível início de uma depressão ou crises de ansiedade logo no começo. O que previne a fazeção de cagadas de potencial mais destrutivo.
Não é incrível? Percebo que tudo o que eu tenho de doenças, sejam psíquicas ou físicas, são do tipo auto-destrutivo: gastrite, depressão, um precipitado (mas não impossível) diagnóstico de doença auto-imune... Quer algo mais auto-destrutivo que uma doença auto-imune? Criar anticorpos anti-vocêmesmo é realmente algo que só se explica somaticamente falando...
Felizmente eu não arranco tufos de cabelo nem os cílios dos olhos (tem quem faça isso), não rôo unha, não fumo, não bebo (só socialmente) e não uso drogas.
Mas sexo eu faço, tá?

perdoai-os senhor, eles não sabem o que fazem

Quando eu tinha 18 anos tive uma depressão profunda. 1995. Eu fazia duas faculdades ao mesmo tempo, cantava no Coral em uma, e era representante discente e Diretora no Centro Acadêmico da outra. Na época, o merda do meu psicólogo (era um merda mesmo) não conseguiu identificar que eu estava em depressão. E os meus pais nem podiam mesmo, porque eu mal falava com eles. Contava algumas mentiras e eles achavam que tudo estava bem.
Em julho daquele ano me apaixonei por um rapaz que morava em Brasília, e desde então só chorava. Ia dormir às 4 da manhã todo dia e mal dava conta de assistir às aulas no período da tarde(!). A minha república era um lixo, e eu passava a madrugada assistindo TV a cabo e matando baratas, de todos os tamanhos, formatos e cores, que andavam pelo chão e subiam pelas paredes. Eu saía com mais uns dois ou três rapazes em SP para suprir a minha carência que não tinha fim. E chorava de saudades do candango, que não vinha nunca me ver porque não sabia dar um passo sem pedir autorização pro merda (era um merda mesmo) do pai dele.
No final do ano, mudei-me pro apartamento onde moro até hoje. No meio da depressão. A merda da terapia já tinha ido pro espaço. Também, era uma merda mesmo.
Resultados:
  • repeti todas as 4 matérias em que eu estava matriculada na faculdade de Direito.E o pior: o pessoal assinava as listas pra mim, então eu tinha 99% de presença mas fiquei com ZERO de nota. Não consegui ir fazer uma única prova. Nada. Até hoje meus pais não sabem que, na verdade, nunca tranquei a faculdade de direito. Repeti tudo mesmo.
  • larguei o Coral no meio de uma série de apresentações marcadas praquele final de 1995. Simplesmente deixei o regente na mão, sem qualquer justificativa. Não tinha coragem de ir lá dizer que não conseguia mais.
Resultados tardios não esperados:
  • mínimas chances de conseguir bolsa na FAPESP com reprovações no histórico escolar.
Problemas emilianos que dificultam ainda mais a obtenção de bolsa na FAPESP:

  • idade: não sou mais recém-formada
  • não fiz iniciação científica, embora tenha tentado, mas as minhas reprovações fizeram com que eu não conseguisse a bolsa
  • neurose que vira ansiedade por problemas com dinheiro, que gera outros problemas, como dificuldade de trabalhar e estudar
  • incapacidade de administrar coisas demais ao mesmo tempo sem fazer alguma delas meia-boca. nesse caso, meia-boca foi o trabalho que fiz pra pós, no qual tirei nota B, o que certamente reduzirá ainda mais as minhas chances de obter uma bolsa.
Conclusão:
1) a gente paga pelos erros do passado, ainda que eles tenham sido cometidos na juventude/adolescência. paga um preço mais alto do que devia, às vezes.
2) ansiedade é o mal do século. e é uma MERDA. assim como era o meu terapeuta. acho que vou processar esse filhodaputa...

22 agosto 2005

4x4

Vixi, faz tempo que eu não venho aqui.
Ando meio desligada, meio deprimida, meio me sentindo culpada com os sapatos, calças e blusas que comprei.
Noto que, quando volto de um retiro budista, sempre consumo menos. O consumo realmente está associado (no meu caso) à ansiedade. Não que eu seja uma consumista louca, isso não. Tenho momentos... (risos).
Aliás outro dia aconteceu uma coisa engraçada - acho que estou conseguindo virar uma pessoa moderada nos meus gostos, na minha vida (o que, pra mim, é bom) - : eu já passei por duas entrevistas para pesquisa de mercado e não passei em nenhuma das duas. E acho que talvez só passasse em uma: a de chocólatras. Mesmo assim, atualmente tenho tentado moderar o consumo de chocolate...
As entrevistas eram pra saber se eu tinha o perfil pra participar de pesquisas de mercado de um produto pra cabelo e café. Pra primeira não passei porque só faço escova umas 4 x por ano, não pinto o cabelo (ainda), não faço alisamento, e faço hidratação também só umas 4 x por ano. Ou seja, não sou uma boa consumidora pra testar produtos pro cabelo.... Pra segunda... bem, precisava beber café 3x ao dia!!!
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Coisas que eu faço 3 ou mais vezes ao dia:
  • escovar os dentes
  • comer
  • beber
  • fazer xixi
  • checar e-mails
  • pensar no meu saldo devedor no banco

08 agosto 2005

O círculo do eterno retorno

Teminha recorrente nesse blog, não? Ah, tô falando da TPM. É que tem todo mês, sabe? Tooooodo mês. Todo mesmo. Every fucking month!!! (com acento no 'fu')
Claro que aí as coisas se encadeiam sem a gente perceber. Quando viu, já pegou aquele drama que faz chorar. Bem que eu tentei uma comédia, ontem assisti Legally Blonde 2, engraçadinho, totalmente excelente, como diria Paulo Bonfá, para dias de deprê. Mas não pude evitar seu contraponto dramático (eu tive um namorado que me acusava, assim mesmo, quase um xingamento, de ser dramática. o filho da puta.), The Hours. Até fiquei com vontade de ler Mrs. Dalloway, mas acho perigoso ler um livro sobre uma mulher que se mata (ooops, parece que ela não se mata, afinal) assim, do nada, num dia como esses.
Ontem já tive minha cota de pensamentos sobre morte. Hoje já tive minha conta de pensamentos sobre 'eu não vou conseguir ser nada na vida e uma hora vou ficar desempregada e sem ter onde cair morta porque não arrumei um emprego público; melhor prestar concurso em alguma universidade...'. Esse mês só não tive ainda a cota de pensamentos 'eu nunca vou achar ninguém e ter filhos e vou morrer sozinha'.
Então acho melhor encher a cara de óleo de prímula (ahaaa!!! achou que eu dizer vinho, né? ou uísque? ou vodka, que eu não encho a cara com bebida vagabunda...), e esperar mais uma semana passar. Esperar passarem as horas.

31 julho 2005

Integral

Mês agitado, cheio de acontecimentos. Muita bagunça interior. Paixões, desejos, tristezas, frustrações. Falta de tempo: esse que quando nos sobra nos falta e quando nos falta... bem, nos falta mesmo.
Me faltou, especialmente, tempo pra processar tudo. Pra digerir... se necessário, até, ruminar um pouco antes de engolir. A sensação que tenho é que tive que engolir tudo inteiro. E com casca.
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Aos pouquinhos vou tomando consciência do que é ser adulto, e isso me fascina e me assusta simultaneamente. Sempre tive medo desse momento, em que perderia as prerrogativas de mocinha, de recém-formada, e assumiria as 'responsas' que vêm junto com a liberdade de ser adulto. Ser adulto é responder pelos próprios atos, sem ninguém pra botar a culpa se der alguma merda. Isso é difícil. Espero conseguir, com alguma dignidade.
Sinto que finalmente estou construindo meus próprios caminhos... como diria aquele que eu cito, mas nunca sei o nome: "camiñante, no hay camiño. el camiño se hace al andar".

26 julho 2005

Choro

A minha avó morreu. Eu não estou acabada nem super triste, o que catolicamente falando é realmente um horror. Mas não posso fazer nada. Eu não muito era ligada a ela, exceto pelo sangue e por um pouco de afeição que cultivei durante esses últimos anos em que ela esteve morando com meus pais. Mas ela era causa de tanta discórdia e sofrimento na minha casa que não consigo sentir senão alívio pelo fim. Também fico aliviada por ela ter parado de sofrer, já que da última vez que a vi já não era mais aquela italianona fortona de antes. Tinha virado uma velhinha doente.
Ela nunca teve vontade de viver, pelo menos nos últimos anos. Claro, tinha uma depressão tão forte que remédio nenhum fazia efeito. Só fazia se lamentar pela droga de vida que ela levava agora e pela merda de vida que tinha tido até então, com meu avô que a traía enquanto ela lavava e passava (com ferro em brasa) roupa pra fora. À noite ainda catava feijão à luz de lamparina.
Contava que, com o dinheiro que conseguiu ganhar, formou o único filho doutor, meu pai, que teve o ímpeto de dizer 'quero ser médico' - contra a vontade do pai - e, ao contrário dos outros irmãos, foi lá, estudou e se formou. Os demais estão por aí, penando em situação financeira complicada....
Além da depressão, ela tinha dezenas de doencinhas incuráveis pelos métodos normais da medicina, uma vez que praticamente todas eram psicossomáticas: fazia todos os exames, nada aparecia; tratamentos de último tipo, nada funcionava. Sofria, dor aqui, dor ali, tontura, dor de estômago, intestino absolutamente preso, dor de cabeça, as pernas que estão bambas... De repente, sumia aquele sintoma e aparecia um novo, igualmente imaginário. É incrível o poder que a cabeça da gente tem de criar o belo e de destruir aos outros e a nós mesmos.
Nos últimos tempos, meu pai a transferira para uma casa de repouso em Bauru, porque em Botucatu não havia uma que prestasse e não dava mais pra ela ficar lá em casa: precisava de assistência 24h, quase não saía mais da cama. E acho que depois que ela foi pra lá, acabou o restinho da vontade de viver que ela ainda tinha. Sem o filho por perto a dar-lhe um pouco de atenção na hora das refeições, sem parentes, sem amigos, o que fazer, senão morrer?
Quando falei com meu pai no sábado à tarde eu estava viajando. Liguei para dizer-lhe que tinha chegado bem, e ele me contou que acabara de voltar de Bauru, e que a havia transferido mais uma vez para o hospital, mas que ela estava bem. Pela seiláeuqualésima vez, cansado, triste, me disse: 'não acaba nunca, é o meu calvário'.
Acabou.

20 julho 2005

Mia Caipirinha

Meu querido amigo blogueiro e designer Marcelo Calenda fez uma série 'caipirinhas' no blog dele, o www.calendas.blog.uol.com.br. Mandei pra ele uma fotinho de Emilia, com cara mesmo de boneca de pano, aos 3 aninhos e meio de idade, toda faceira de caipirinha. Quem quiser conferir, é só clicar no azulzinho aí em cima. Aproveitem para xeretar lá, que o moço é criativo à beça, de modo que quando leio o blog dele me sinto realmente deprimida por escrever essas porcariadas aqui.
Beijos julhinos a todos os meus fiéis leitores.