"A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblê baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblê...
A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o Candomblê? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ - dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira..."
(Rubem Alves - O amor que acende a lua, p. 59.)
PS: Peguei no site dele! Lá tem mais! Aproveitem, pipocos!!!!
15 dezembro 2007
03 dezembro 2007
A água e a metrópole
Não é estranho que nós que vivemos na metrópole tenhamos nos esquecido de como é ter água por perto?
Nossa relação com a água é sempre intermediada por alguma barreira: já vem encanada, de dentro da torneira ou dentro de garrafinhas ou galões de água mineral. Ou então temos que ultrapassar os portões de um clube ou de uma academia para chegar a um reservatório de água clorada, tendo passado previamente por um médico em início de carreira para fazer o exame que garante alguma proteção contra micoses, otites e afins.
Para chegar até a água, nós, paulistanos, temos que nos deslocar até mais longe. Ir até o litoral... ou para alguma das represas, Guarapiranga, Billings.
O mais perto de água que temos por aqui são dois grandes 'não-rios' cortando nossa cidade, quase inacessíveis, sendo preciso atravessar uma avenida expressa (uma das Marginais), e pular uma barreirinha de concreto para chegar até uma massa de água fedida e perigosa.
Porque a cidade de São Paulo tem uma relação assim tão distante com a água é que estranhei e achei, na verdade, muito louco, a lagoa do Parque do Ibirapuera estar tão perto e tão acessível ao pedestre.
Quem chega ali na avenida não precisa sequer entrar no Parque. A lagoa está lá. Na beira da Av. Pedro Álvares Cabral. A dois passos do asfalto, quem quiser que escorregue pelo barranco, que é curto e não muito inclinado, e entre na lagoa para refrescar-se.
Não sei se é funda, não sei se é limpa. Mas é água, água perto de nós. Água no meio da cidade... sem barreiras, sem cerquinha e sem exame médico.
Nossa relação com a água é sempre intermediada por alguma barreira: já vem encanada, de dentro da torneira ou dentro de garrafinhas ou galões de água mineral. Ou então temos que ultrapassar os portões de um clube ou de uma academia para chegar a um reservatório de água clorada, tendo passado previamente por um médico em início de carreira para fazer o exame que garante alguma proteção contra micoses, otites e afins.
Para chegar até a água, nós, paulistanos, temos que nos deslocar até mais longe. Ir até o litoral... ou para alguma das represas, Guarapiranga, Billings.
O mais perto de água que temos por aqui são dois grandes 'não-rios' cortando nossa cidade, quase inacessíveis, sendo preciso atravessar uma avenida expressa (uma das Marginais), e pular uma barreirinha de concreto para chegar até uma massa de água fedida e perigosa.
Porque a cidade de São Paulo tem uma relação assim tão distante com a água é que estranhei e achei, na verdade, muito louco, a lagoa do Parque do Ibirapuera estar tão perto e tão acessível ao pedestre.
Quem chega ali na avenida não precisa sequer entrar no Parque. A lagoa está lá. Na beira da Av. Pedro Álvares Cabral. A dois passos do asfalto, quem quiser que escorregue pelo barranco, que é curto e não muito inclinado, e entre na lagoa para refrescar-se.
Não sei se é funda, não sei se é limpa. Mas é água, água perto de nós. Água no meio da cidade... sem barreiras, sem cerquinha e sem exame médico.
Simples assim
Quando a gente está sem grana tem que encontrar maneiras simples e baratas de se divertir. Meu dileto namorado ARN tem me mostrado algumas dessas maneiras, sempre silenciosamente, agindo mais que falando. Nos finais de semana ficamos um pouco em casa, simplesmente namorando e convivendo, o que não temos muita oportunidade de fazer durante a semana: ele faz sua imperdível pizza de abobrinha (hmmmmm), colocamos um som bom pra tocar, ficamos conversando, dançando, vendo filme, enfim, namorando, né?
As vezes saímos pra encontrar amigos e passear. Já fomos algumas vezes no Ibirapuera à noite...
Com ele já fui na Virada Cultural, à qual nunca tinha ido, e adorei.
ARN tem um olhar legal sobre as coisas, curte as coisas simples e me mostra um jeito bom de viver que eu não conhecia.
Este finde fomos duas vezes no Ibira para ver a Árvore de Natal.
A Árvore particularmente não me interessa muito não, acho meio sem graça. Já vi a da Lagoa no Rio e acho a de lá mais bonita...

Mas o que eu achei bonito mesmo foi a iluminação nas árvores. Fica um efeito lindo, um parque meio louco, doido, mágico, lúdico.... Dá vontade de entrar ali no meio das árvores, acho que a gente se sente meio num mundo de fantasia...
Vale a pena ir lá conferir. A foto é do ARN.
As vezes saímos pra encontrar amigos e passear. Já fomos algumas vezes no Ibirapuera à noite...
Com ele já fui na Virada Cultural, à qual nunca tinha ido, e adorei.
ARN tem um olhar legal sobre as coisas, curte as coisas simples e me mostra um jeito bom de viver que eu não conhecia.
Este finde fomos duas vezes no Ibira para ver a Árvore de Natal.
A Árvore particularmente não me interessa muito não, acho meio sem graça. Já vi a da Lagoa no Rio e acho a de lá mais bonita...
Mas o que eu achei bonito mesmo foi a iluminação nas árvores. Fica um efeito lindo, um parque meio louco, doido, mágico, lúdico.... Dá vontade de entrar ali no meio das árvores, acho que a gente se sente meio num mundo de fantasia...
Vale a pena ir lá conferir. A foto é do ARN.
29 novembro 2007
Contardo dispensa apresentações. Demais.
CONTARDO CALLIGARIS
Ilhas desconhecidas
O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo, em nós, que não conhecíamos até então
QUANDO ERA criança, um senhor canadense, Mr. Evans, foi contratado por meus pais para "treinar" meu inglês. O método de Mr. Evans consistia em narrar grandes eventos da História (com H maiúsculo) como se ele tivesse sido uma testemunha ocular. Conseqüência: há detalhes íntimos de várias cenas famosas que não sei mais se são fatos ou fantasias de Mr. Evans.
Uma fonte de inspiração de Mr. Evans era a expedição de Lewis e Clark, que, entre 1804 e 1806, abriu o caminho do Oeste americano. Segundo Mr. Evans, em 7 de abril de 1805, deixando Fort Mandan para se aventurar no território desconhecido das grandes planícies, Lewis, pensativo, teria dito a George Gibson (o melhor atirador da expedição): "New land, George" (uma nova terra, George).
Nunca pude confirmar a veracidade da dita conversa. Mas essa frase, aparentemente trivial, foi incorporada no meu léxico familiar. A cada vez que, numa viagem de férias, saíamos do país, meu irmão e eu não parávamos de repetir: "New land, George". Ainda hoje, quando chego num lugar desconhecido, penso em Lewis e Gibson.
Mais tarde, meu irmão e eu passamos a usar a mesma expressão quando - numa festa, por exemplo - avistávamos mulheres que despertavam nosso interesse. Um dos dois, invariavelmente, levantava a mão espalmada, como se quisesse proteger os olhos do sol, e dizia: "New land, George".
Na literatura, não é raro que um corpo amado e desejado seja comparado à paisagem de terras incógnitas. John Donne, num de seus mais lindos poemas (do século 17), chamou sua amada de "minha América, minha terra recém-descoberta". De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual.
De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens.
Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: "Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver".
Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas.
Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa.
Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses "desaparecidos", os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga.
Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes.
O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós.
Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem.
Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.
ccalligari@uol.com.br
Ilhas desconhecidas
O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo, em nós, que não conhecíamos até então
QUANDO ERA criança, um senhor canadense, Mr. Evans, foi contratado por meus pais para "treinar" meu inglês. O método de Mr. Evans consistia em narrar grandes eventos da História (com H maiúsculo) como se ele tivesse sido uma testemunha ocular. Conseqüência: há detalhes íntimos de várias cenas famosas que não sei mais se são fatos ou fantasias de Mr. Evans.
Uma fonte de inspiração de Mr. Evans era a expedição de Lewis e Clark, que, entre 1804 e 1806, abriu o caminho do Oeste americano. Segundo Mr. Evans, em 7 de abril de 1805, deixando Fort Mandan para se aventurar no território desconhecido das grandes planícies, Lewis, pensativo, teria dito a George Gibson (o melhor atirador da expedição): "New land, George" (uma nova terra, George).
Nunca pude confirmar a veracidade da dita conversa. Mas essa frase, aparentemente trivial, foi incorporada no meu léxico familiar. A cada vez que, numa viagem de férias, saíamos do país, meu irmão e eu não parávamos de repetir: "New land, George". Ainda hoje, quando chego num lugar desconhecido, penso em Lewis e Gibson.
Mais tarde, meu irmão e eu passamos a usar a mesma expressão quando - numa festa, por exemplo - avistávamos mulheres que despertavam nosso interesse. Um dos dois, invariavelmente, levantava a mão espalmada, como se quisesse proteger os olhos do sol, e dizia: "New land, George".
Na literatura, não é raro que um corpo amado e desejado seja comparado à paisagem de terras incógnitas. John Donne, num de seus mais lindos poemas (do século 17), chamou sua amada de "minha América, minha terra recém-descoberta". De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual.
De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens.
Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: "Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver".
Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas.
Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa.
Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses "desaparecidos", os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga.
Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes.
O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós.
Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem.
Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.
ccalligari@uol.com.br
22 novembro 2007
Meu lado negão
Eu finalmente entendi o que a gringaiada sente quando chega na Bahia. Mais precisamente, em Salvador. O Pelourinho à noite é uma loucura, tem música pra todos os lados, e não é só pra turista não!!! O baiano adora música, os lugares estão sempre cheios de locais...
Na nossa noite mais pelourística fomos assistir a missa católico-afro da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos...
Bebemos uma cerveja ali no bar Cruz do Pascoal...
E depois fomos ao show do Gerooonimo!!! que eu já comentei aqui, muita energia boa, cheio de locais.
Dali saímos para uma volta no Pelô. Logo que terminamos a subida da ladeira já tinha um batuque (esse era pra turista mesmo) do estilo Olodum, com todo mundo indo atrás, os negões fazendo coreografia e um outro vendendo os CDs. Uma delícia, dancei à beça. Tinha um casal sentado num bar que ficou só rindo da minha empolgação.
Depois fomos passear. Uns dois quarteirões pra lá esbarramos numa esquina com um pagode do bom, bem tocado. Paramos ali também, eu empolgada, dançando louca, e o ARN só achando graça da minha doidera. Improvisamos um forrozinho do tipo 'dançando de walkmen', bem ao estilo ARN, pianinho, pertinho, gostoso demais.
Logo mais à frente outro batuque e um pouco mais além numa praça vários bares com som ao vivo, axé music. Isso tudo num raio de uns 10 quarteirões.
A gringaiada pira mesmo....
E eu me empolguei com tanta baianidade e fiz o cabelo afro. Eu e as gringas. Ficou bom, não?
Probleminhas do cabelo afro
O único problema do afro foi a primeira noite. Dormir não foi fácil. Mas não tive dor de cabeça não. Só que acordei em pose de múmia, sendo que, em geral, durmo de lado...(risos)
Minto, foram dois problemas: ontem desmanchei o afro, porque os elastiquinhos já tavam soltando... Rapaz, lavei a cabeça inteira hoje...(porque só tinha lavado a parte solta, esse é outro problema... não dá pra lavar direito as tranças...) e caiu MUITO cabelo. MUITO mesmo. Não sei se porque foram 5 dias sem cair os cabelos da parte trançada (a gente sempre perde cabelo todo dia), mas caiu tanto que assustei...
Outra coisa: dá uma boa estragada no cabelo a trancinha. Muitos fios quebrados e bastante cabelinhos arrepiados como resultado.
Mas valeu!!! Quem sabe não repito qualquer hora dessas?
Só duvido que aqui em SP custe os mesmos R$ 20,00 que eu paguei lá. E olha que paguei caro... Tem gente lá que faz por 10 ou 15 pilas...

olha eu aí. não dá pra ver, mas tem umas gringas do meu lado fazendo também ;-)
Minto, foram dois problemas: ontem desmanchei o afro, porque os elastiquinhos já tavam soltando... Rapaz, lavei a cabeça inteira hoje...(porque só tinha lavado a parte solta, esse é outro problema... não dá pra lavar direito as tranças...) e caiu MUITO cabelo. MUITO mesmo. Não sei se porque foram 5 dias sem cair os cabelos da parte trançada (a gente sempre perde cabelo todo dia), mas caiu tanto que assustei...
Outra coisa: dá uma boa estragada no cabelo a trancinha. Muitos fios quebrados e bastante cabelinhos arrepiados como resultado.
Mas valeu!!! Quem sabe não repito qualquer hora dessas?
Só duvido que aqui em SP custe os mesmos R$ 20,00 que eu paguei lá. E olha que paguei caro... Tem gente lá que faz por 10 ou 15 pilas...
olha eu aí. não dá pra ver, mas tem umas gringas do meu lado fazendo também ;-)
20 novembro 2007
(Des)Igualdades e Preconceitos
Não tenho foto pra ilustrar isso, mas uma coisa me chamou a atenção em Salvador.... Nas praias, local mais democrático (em geral), muitos negros em Salvador. Na balada que a Jubs indicou, Geronimo, animal, muitas pessoas, em sua maioria negras e negros lindos, muita gente legal, um astral ó-te-mo, super me identifiquei. Acho que foi por conta desse dia que me empolguei e fiz o cabelo afro (ou semi-afro, já que não trancei o cabelo todo - achei que pra mim não ficaria bom...)... Porque as moças são simplesmente lindas, estilosas e coloridas. Eu descia com um largo sorriso de felicidade as escadas que era arquibancada e recebia em troca outros largos sorrisos e alguns comentários. Muito bom...Éramos nós os estranhos ali, os estrangeiros, mas em nenhum momento senti-me discriminada ou hostilizada por ser uma turista entre os locais. Pelo contrário, a energia era simplesmente uma delícia. Havia alguns brancos ali no meio, mas realmente não senti nenhum tipo de hostilidade.
Alguns dias depois, em busca de uma comida diferente de acarajé, abará, churrasquinho de bode e carne de sol com purê de aipim (passamos uma semana inteira nos alimentando de petiscos!!!, cerverja e água de coco!!! asssim não há reeducação alimentar que resista!...) resolvemos encerrar a viagem num barzinho ali perto de onde nos hospedamos... um bar mais arrumadinho, do tipo daqueles que a gente encontra igual aqui em SP, no Rio, em BH, qualquer lugar, portanto. Os preços eram parecidos com os preços daqui. R$ 10,50 uma porção de pastel com 8 unidades.
Entre um pastel de camarão e um de siri, notei que não havia negros ali. Ou melhor, havia sim. Poucos, em geral um dentre 4 ou 5 brancos, nunca um grupo só de negros, nunca o suficiente para que notássemos sua presença.
Fiquei intrigada com isso... Não era um local de turista não, era um local de locais.
Pesquisando, achei na internet: 64,8% da população de Salvador é de pardos e 21,8% de negros (ao que parece, são dados do IBGE).
Porém, "segundo estudo do professor da UFRJ Marcelo Paixão, que coordena o Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais de Relações Raciais, preparado para o Dia Nacional da Consciência Negra (...), em Salvador, (...) a média mensal recebida pelos negros é de R$ 715, ou apenas 52,9% do valor recebido pelos bancos, de R$ 1.350."
Ainda estou com isso entalado na goela.... Preciso pensar mais a respeito. Mas me incomodou essa ausência.
*****************************************************
Na minha turma da SanFran tinha somente dois ou 3 negros, no meio de uns 200 brancos. Uma vez, conversando com um desses amigos, notei que ele só tinha amigos brancos. Na verdade, ele é um branco, como uma vez disseram do Ronaldo, jogador. É um negro branco. Faz a gente pensar...
fonte: site Gazeta do Povo online
Alguns dias depois, em busca de uma comida diferente de acarajé, abará, churrasquinho de bode e carne de sol com purê de aipim (passamos uma semana inteira nos alimentando de petiscos!!!, cerverja e água de coco!!! asssim não há reeducação alimentar que resista!...) resolvemos encerrar a viagem num barzinho ali perto de onde nos hospedamos... um bar mais arrumadinho, do tipo daqueles que a gente encontra igual aqui em SP, no Rio, em BH, qualquer lugar, portanto. Os preços eram parecidos com os preços daqui. R$ 10,50 uma porção de pastel com 8 unidades.
Entre um pastel de camarão e um de siri, notei que não havia negros ali. Ou melhor, havia sim. Poucos, em geral um dentre 4 ou 5 brancos, nunca um grupo só de negros, nunca o suficiente para que notássemos sua presença.
Fiquei intrigada com isso... Não era um local de turista não, era um local de locais.
Pesquisando, achei na internet: 64,8% da população de Salvador é de pardos e 21,8% de negros (ao que parece, são dados do IBGE).
Porém, "segundo estudo do professor da UFRJ Marcelo Paixão, que coordena o Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais de Relações Raciais, preparado para o Dia Nacional da Consciência Negra (...), em Salvador, (...) a média mensal recebida pelos negros é de R$ 715, ou apenas 52,9% do valor recebido pelos bancos, de R$ 1.350."
Ainda estou com isso entalado na goela.... Preciso pensar mais a respeito. Mas me incomodou essa ausência.
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Na minha turma da SanFran tinha somente dois ou 3 negros, no meio de uns 200 brancos. Uma vez, conversando com um desses amigos, notei que ele só tinha amigos brancos. Na verdade, ele é um branco, como uma vez disseram do Ronaldo, jogador. É um negro branco. Faz a gente pensar...
fonte: site Gazeta do Povo online
19 novembro 2007
Decisions, decisions
18 novembro 2007
é o azul que a gente fita, no azul do mar da bahia...
Essa música do Gil não me saiu da cabeça durante a semana que passei com meu querido e dileto namorado ARN em Salvador. É a segunda ida à Bahia este ano. No Carnaval, por increça que parível, foi um esquema totalmente mato, off-trio-elétrico-abadá-e-Ivete, como se pode ver nas fotos de Diogo (procure na busca por Diogo, vc vê as fotos, um sossego só, sítio e praia quase no mesmo lugar). Dessa vez, num feriado um pouco esticado (de quase uma semana), ficamos em Salvador. Aquela festa de Salvador. Aqueles contrastes todos de Salvador.

As cores, o mar transparente (pelo menos o da praia do Porto da Barra e o da praia do Farol da Barra), o sol (sempre brilhando no céu azul e limpo; sempre lindos pôres-do-sol, decisão mais importante de cada dia...), e a pobreza, a dificuldade, o pelejar do bahiano para tocar a vida. Mas sempre bricando, brincando de brigar (como observou ARN), brincando de zoar com o outro, o Bahia subindo pra série B, e assim a vida segue. Pronto!

Salvador pra mim tem cheiro de Acarajé. Acarajé que foi comido religiosamente todos os dias pelo meu companheiro de viagem e por mim quase todos os dias, alguns mais de uma vez. O melhor que comi não foi o da Cira não, foi o de uma Baiana chamada Augusta que fica embaixo da escada do meio da praia do Farol. Quem anda pra lá e pra cá vendendo na praia é a Karla, uma moça muito bonita e simpática, que quase flerta com o freguês ao dizer o preço da porção de mini-acarajé com um camarão salgadinho na medida e muito bem temperado, hmmmmm.....
Ah, e é bom que todos saibam:

Acarajé causa esquecimento!!!
Depois escrevo mais.
(créditos das fotos: todas por ARN!)
As cores, o mar transparente (pelo menos o da praia do Porto da Barra e o da praia do Farol da Barra), o sol (sempre brilhando no céu azul e limpo; sempre lindos pôres-do-sol, decisão mais importante de cada dia...), e a pobreza, a dificuldade, o pelejar do bahiano para tocar a vida. Mas sempre bricando, brincando de brigar (como observou ARN), brincando de zoar com o outro, o Bahia subindo pra série B, e assim a vida segue. Pronto!
Salvador pra mim tem cheiro de Acarajé. Acarajé que foi comido religiosamente todos os dias pelo meu companheiro de viagem e por mim quase todos os dias, alguns mais de uma vez. O melhor que comi não foi o da Cira não, foi o de uma Baiana chamada Augusta que fica embaixo da escada do meio da praia do Farol. Quem anda pra lá e pra cá vendendo na praia é a Karla, uma moça muito bonita e simpática, que quase flerta com o freguês ao dizer o preço da porção de mini-acarajé com um camarão salgadinho na medida e muito bem temperado, hmmmmm.....
Ah, e é bom que todos saibam:
Acarajé causa esquecimento!!!
Depois escrevo mais.
(créditos das fotos: todas por ARN!)
29 outubro 2007
Antes que o tempo e a distância digam não
Certas situações na vida fazem com que paremos pra avaliar o modo como tratamos as pessoas de quem gostamos e que gostam da gente.
Nunca perdi ninguém próximo, mas já vi duas pessoas muito próximas perderem pessoas muito próximas. Somente agora, mais adulta, é que pude ter a clareza desse sofrimento, mas sei que só vou saber mesmo, profundamente quando, inevitavelmente, um dia, perder eu também alguém querido.
Nessas ocasiões é que a gente se dá conta da nossa babaquice: ficamos tentando provar pontos de vista quando, o que realmente importa, que é dar carinho, amor, abraços e beijos em quem gostamos e em quem gosta da gente, esquecemos de fazer todos os dias.
Somos mesmo estranhos...
Dosar o amor é uma sabedoria; aliás, refraseio: dosar a demonstração de amor, pra não virar 'pegajosice', é uma sabedoria. Mas amor... Amor não se dosa!! Mas por vezes dosamos o nosso demonstrar... E quantas vezes não nos damos conta de que ficar dosando isso é uma grande bobagem...
Mas é difícil... muitas vezes não aprendemos a dizer do nosso afeto. Não sabemos como dizer ou como chegar. Mas é um aprendizado tão necessário!...
Nos últimos tempos ouvi duas vezes a mesma frase em situações parecidas, de pessoas que não se conhecem: diga hoje, agora, praquela pessoa de quem vc tanto gosta, que vc a ama. Abrace-a, beije-a, diga o que sente. Porque amanhã pode não ser mais possível.
Parece piegas né? Sair por aí declarando amor... Mas as duas vezes em que ouvi essa frase fez muito sentido. Estou disposta a praticar.
Acho que vale a pena. Vai ser difícil, em especial com certas pessoas, porque sempre tive uma certa dificuldade em expressar o meu afeto com gestos, com abraços. Abraço é difícil. Mas estou disposta a praticar.
Falar também é difícil, algumas vezes, mas sempre é hora de tentar coisas novas.
Vamos tentar?
Nunca perdi ninguém próximo, mas já vi duas pessoas muito próximas perderem pessoas muito próximas. Somente agora, mais adulta, é que pude ter a clareza desse sofrimento, mas sei que só vou saber mesmo, profundamente quando, inevitavelmente, um dia, perder eu também alguém querido.
Nessas ocasiões é que a gente se dá conta da nossa babaquice: ficamos tentando provar pontos de vista quando, o que realmente importa, que é dar carinho, amor, abraços e beijos em quem gostamos e em quem gosta da gente, esquecemos de fazer todos os dias.
Somos mesmo estranhos...
Dosar o amor é uma sabedoria; aliás, refraseio: dosar a demonstração de amor, pra não virar 'pegajosice', é uma sabedoria. Mas amor... Amor não se dosa!! Mas por vezes dosamos o nosso demonstrar... E quantas vezes não nos damos conta de que ficar dosando isso é uma grande bobagem...
Mas é difícil... muitas vezes não aprendemos a dizer do nosso afeto. Não sabemos como dizer ou como chegar. Mas é um aprendizado tão necessário!...
Nos últimos tempos ouvi duas vezes a mesma frase em situações parecidas, de pessoas que não se conhecem: diga hoje, agora, praquela pessoa de quem vc tanto gosta, que vc a ama. Abrace-a, beije-a, diga o que sente. Porque amanhã pode não ser mais possível.
Parece piegas né? Sair por aí declarando amor... Mas as duas vezes em que ouvi essa frase fez muito sentido. Estou disposta a praticar.
Acho que vale a pena. Vai ser difícil, em especial com certas pessoas, porque sempre tive uma certa dificuldade em expressar o meu afeto com gestos, com abraços. Abraço é difícil. Mas estou disposta a praticar.
Falar também é difícil, algumas vezes, mas sempre é hora de tentar coisas novas.
Vamos tentar?
18 outubro 2007
Bom senso
Seria mesmo complicado o Huck reconhecer um cara que estava usando capacete, não???
Ainda bem que ele teve o bom senso de não reconhecer os sujeitos sem de fato reconhecer, como acontece em um monte de casos.
Analisei um processo criminal uma vez do começo ao fim para montar uma aula de psicologia do testemunho. Na fase de inquérito, com os fatos frescos na cabeça, a gente ainda se lembra com relativa clareza das coisas. Com o passar do tempo, vamos agregando imagens e relatos nessa lembrança. As coisas se misturam...e as pessoas podem cometer erros.
E ainda ensinamos nas faculdades que vamos descobrir a verdade no processo penal...
"Huck não reconhece suspeitos de roubar seu Rolex em São Paulo
Publicidade
da Folha Online
da Folha de S.Paulo
O apresentador da TV Globo Luciano Huck não reconheceu nesta quinta-feira os dois suspeitos de roubar seu relógio Rolex em um bairro nobre da zona oeste de São Paulo no mês passado.
Huck mora no Rio e veio a São Paulo apenas para ver as fotos dos suspeitos, o garçom Wagner do Nascimento Marinho, 22, foragido da penitenciária de Valparaíso (577 km de São Paulo), e um grafiteiro.
As fotos foram apresentadas pelo delegado Marcos Manfrin, que teve um encontro com o apresentador no escritório do pai de Huck, em Pinheiros (zona oeste de São Paulo). Segundo sua assessoria, o apresentador já voltou para o Rio.
A prisão ocorreu em Taboão da Serra (Grande São Paulo), graças a um informante da polícia. De acordo com o informante, o Rolex, avaliado em R$ 10 mil, já foi vendido."
Ainda bem que ele teve o bom senso de não reconhecer os sujeitos sem de fato reconhecer, como acontece em um monte de casos.
Analisei um processo criminal uma vez do começo ao fim para montar uma aula de psicologia do testemunho. Na fase de inquérito, com os fatos frescos na cabeça, a gente ainda se lembra com relativa clareza das coisas. Com o passar do tempo, vamos agregando imagens e relatos nessa lembrança. As coisas se misturam...e as pessoas podem cometer erros.
E ainda ensinamos nas faculdades que vamos descobrir a verdade no processo penal...
"Huck não reconhece suspeitos de roubar seu Rolex em São Paulo
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da Folha Online
da Folha de S.Paulo
O apresentador da TV Globo Luciano Huck não reconheceu nesta quinta-feira os dois suspeitos de roubar seu relógio Rolex em um bairro nobre da zona oeste de São Paulo no mês passado.
Huck mora no Rio e veio a São Paulo apenas para ver as fotos dos suspeitos, o garçom Wagner do Nascimento Marinho, 22, foragido da penitenciária de Valparaíso (577 km de São Paulo), e um grafiteiro.
As fotos foram apresentadas pelo delegado Marcos Manfrin, que teve um encontro com o apresentador no escritório do pai de Huck, em Pinheiros (zona oeste de São Paulo). Segundo sua assessoria, o apresentador já voltou para o Rio.
A prisão ocorreu em Taboão da Serra (Grande São Paulo), graças a um informante da polícia. De acordo com o informante, o Rolex, avaliado em R$ 10 mil, já foi vendido."
15 outubro 2007
Que lado do seu cérebro vc usa mais?
Vejam este teste.
Eu achei interessante, porque vejo dos dois jeitos com muita facilidade... basta eu desviar o olhar um pouquinho e quando olho pra moça ela já está girando do outro lado.
Será que estou conseguindo atingir o tão desejado equilíbrio?
Vejam aí, depois me contem!
Eu achei interessante, porque vejo dos dois jeitos com muita facilidade... basta eu desviar o olhar um pouquinho e quando olho pra moça ela já está girando do outro lado.
Será que estou conseguindo atingir o tão desejado equilíbrio?
Vejam aí, depois me contem!
04 outubro 2007
Free Burma

estou aderindo por motivos óbvios à campanha dos blogueiros para despertar a atenção internacional para Burma. com mais tempo e mais tranqüilidade faço um post de verdade a respeito. por hora, fica a adesão.
quem quiser aderir clica aqui.
28 setembro 2007
23 setembro 2007
como nossos pais
(fonte: http://meuserevaporei.blogspot.com)Essa árvore se chama Jacarandá mimoso... Já viram como tem alguns lindos por aí, espalhando flores pelo céu e fazendo aquele tapete colorido pelo chão???
Cresci, cresci, e virei uma mistura muito bem dosada dos defeitos e das qualidades dos meus pais...
Esse negócio de ficar olhando árvore floridas pela cidade, observar que árvore é de cada época, querer saber o nome... Os passarinhos... Isso é coisa de meu pai (e, em certa medida, também da minha mãe, um pouco influenciada por ele, creio), que cultiva um jardim há 30 anos... agora já temos um pequeno pomar!!!
Sobre o pequeno pomar de hoje e o pomar da minha infância vou escrever depois. Amoras, jabuticabas e pitangas: reminiscências de uma casa e de uma família que me acolhia com chás, chocolatinhos e uma permissividade que na minha casa não era possível.
Dia mundial sem carro
"Só há 2 formas para que o 'Dia mundial sem carro' dê certo em São Paulo:
1) São paulo ter um transporte público decente com uma malha metroviária abrangente.
2) O 'Dia mundial sem carro' ser decretado pelo PCC."
(Comentário de um leitor no blog Querido Leitor - link aí na barrinha lateral)
1) São paulo ter um transporte público decente com uma malha metroviária abrangente.
2) O 'Dia mundial sem carro' ser decretado pelo PCC."
(Comentário de um leitor no blog Querido Leitor - link aí na barrinha lateral)
18 setembro 2007
Em protesto, ciclistas criam ciclovias clandestinas nas principais vias de SP
DO "AGORA"
"Ciclistas de São Paulo criaram, por conta própria, faixas preferenciais para bicicletas. A sinalização, feita do lado direito de importantes vias -uma bicicleta pintada com tinta branca-, como as avenidas Paulista e Sumaré, é um protesto contra a falta de ciclovias e também uma maneira de alertar os motoristas de que há ciclistas pedalando na região.
Os desenhos foram feitos em agosto, durante um encontro de ciclistas ativistas. "É uma forma de mostrar que não há estrutura", explica Tiago Beniggio, que é um dos participantes do evento. A organização do encontro, diz ele, não tem nada a ver com as pinturas. "São pessoas que resolveram protestar isoladamente."
A CET, que desconhecia os desenhos, irá avaliá-los e decidir se eles serão apagados."
Folha, 18 de setembro de 2007 - Cotidiano
Essa iniciativa me lembra, timidamente, o movimento Reclaim the Streets, descrito pela escritora Naomi Klein em seu livro "No Logo" ("Sem logo", em português).
Já escrevi sobre isso aqui nesse blog (digite Reclaim na busca do blog, que fica no algo da página).
Acho interessante esse tipo de movimento.
Adoraria ver hordas de ciclistas tomando as ruas sem avisar, expulsando os carros da circulação. Pena que no Brasil não conseguimos ter esse tipo de mobilização social. Por vezes, o 'método Greenpeace' é o único jeito de chamar a atenção.
Por falar nisso, vcs viram reportagem esse finde nos jornais avisando que em pouco tempo, se não reduzirmos os índices de poluição na cidade de São Paulo, logo estaremos iguais a Cubatão?
"Ciclistas de São Paulo criaram, por conta própria, faixas preferenciais para bicicletas. A sinalização, feita do lado direito de importantes vias -uma bicicleta pintada com tinta branca-, como as avenidas Paulista e Sumaré, é um protesto contra a falta de ciclovias e também uma maneira de alertar os motoristas de que há ciclistas pedalando na região.
Os desenhos foram feitos em agosto, durante um encontro de ciclistas ativistas. "É uma forma de mostrar que não há estrutura", explica Tiago Beniggio, que é um dos participantes do evento. A organização do encontro, diz ele, não tem nada a ver com as pinturas. "São pessoas que resolveram protestar isoladamente."
A CET, que desconhecia os desenhos, irá avaliá-los e decidir se eles serão apagados."
Folha, 18 de setembro de 2007 - Cotidiano
Essa iniciativa me lembra, timidamente, o movimento Reclaim the Streets, descrito pela escritora Naomi Klein em seu livro "No Logo" ("Sem logo", em português).
Já escrevi sobre isso aqui nesse blog (digite Reclaim na busca do blog, que fica no algo da página).
Acho interessante esse tipo de movimento.
Adoraria ver hordas de ciclistas tomando as ruas sem avisar, expulsando os carros da circulação. Pena que no Brasil não conseguimos ter esse tipo de mobilização social. Por vezes, o 'método Greenpeace' é o único jeito de chamar a atenção.
Por falar nisso, vcs viram reportagem esse finde nos jornais avisando que em pouco tempo, se não reduzirmos os índices de poluição na cidade de São Paulo, logo estaremos iguais a Cubatão?
06 setembro 2007
blogueiros
M says:
gostou do outro blog afinal?
Mi says:
gostei
tem coisas boas, engraçadas
M says:
que bom. a ideia dele eh nao ter filtro mesmo. \
Mi says:
vc é uma metralhadora de posts curtos e engraçados
M says:
qualquer bobagem, qualquer trocadilho besta, sei lah.
Mi says:
eu sou uma bereta de posts longos e quase nada engraçados
M says:
que bom que vc acha.
hahahahahaha\
mentira: isso que vc escreveu dava um pst curto e engracado.
Mi says:
(bereta ou alguma arma que demora pra atirar e carregar, eu nem sei se bereta é demorada, é que o nome parece assim)
M says:
Mi says:
ahaha
to inspirada hoje
M says:
olha, nao sei se exxiste uma arma que demore pra attirar.
mas nao deve vender muito...
Mi says:
que demora pra carregar, pelo menos
M says:
winchester 16 mm.
Mi says:
ah, mas bereta soa melhor. vou postar
risos
M says:
hahahahahah
Mi says:
foda-se a winchester 16 mm
M says:
e vvc acha que eu taava falando serio?
sei lah como eh uma winchester!
gostou do outro blog afinal?
Mi says:
gostei
tem coisas boas, engraçadas
M says:
que bom. a ideia dele eh nao ter filtro mesmo. \
Mi says:
vc é uma metralhadora de posts curtos e engraçados
M says:
qualquer bobagem, qualquer trocadilho besta, sei lah.
Mi says:
eu sou uma bereta de posts longos e quase nada engraçados
M says:
que bom que vc acha.
hahahahahaha\
mentira: isso que vc escreveu dava um pst curto e engracado.
Mi says:
(bereta ou alguma arma que demora pra atirar e carregar, eu nem sei se bereta é demorada, é que o nome parece assim)
M says:
Mi says:
ahaha
to inspirada hoje
M says:
olha, nao sei se exxiste uma arma que demore pra attirar.
mas nao deve vender muito...
Mi says:
que demora pra carregar, pelo menos
M says:
winchester 16 mm.
Mi says:
ah, mas bereta soa melhor. vou postar
risos
M says:
hahahahahah
Mi says:
foda-se a winchester 16 mm
M says:
e vvc acha que eu taava falando serio?
sei lah como eh uma winchester!
Tristeza e dignidade do suicídio
CONTARDO CALLIGARIS
QUANDO EU tinha 12 anos, um tio meu se suicidou. Era um tio de quem eu gostava e que gostava de mim. Ele enfiou a cabeça no forno e abriu a torneira do gás. Deixou uma nota, sucinta, que dizia: "Suicídio por razões profissionais e amorosas".
Meus pais não esconderam de mim as circunstâncias da morte do tio e me mostraram seu bilhete. Mesmo assim, imaginei perceber, em meus pais, uma certa vergonha. Isso, porque, no fundo, eu os culpava.
Foi a grande crise na minha idealização dos meus pais e, por conseqüência, na tranqüilidade de meu mundo: aparentemente, a amizade e o amor que eles ofereciam não tinham sido suficientes para dar a meu tio a vontade de continuar vivendo.
Nada me garantia, portanto, que eles saberiam fazer o necessário para que eu estivesse a fim de viver.
Foi assim que o luto pelo suicídio do meu tio foi também o fim de minha infância. Mas, em regra, quando se suicida um próximo de quem gostamos e que gostava de nós, não atribuímos vergonha e culpa a terceiros: esses sentimentos surgem em nós, ao descobrir que nossa presença e nosso amor não bastaram para que o outro quisesse viver. Em alguns casos, essa ferida nunca cicatriza.
Quando o suicida é nosso pai ou nossa mãe, o sentimento de não termos sido a razão suficiente para ele ou ela viverem fica conosco para sempre, como um fundo melancólico, como a sensação de uma insuficiência essencial ou de uma impossibilidade de sermos amados.
Quando o suicida é um filho ou uma filha, a perda (irreparável, pois o luto pelos nossos descendentes é contra a ordem das gerações) é acompanhada pelo sentimento de um fracasso, como se não tivéssemos conseguido transmitir o básico: a vontade de viver. Deve ser por isso que os monoteísmos consideram o suicídio como um pecado contra o criador: o suicida demonstraria o malogro de Deus. Assisti ao filme "A Ponte", de Eric Steele, e espero que continue em cartaz. Em São Paulo, já passa em apenas uma sala, duas vezes por dia.
Alguns anos atrás, Ted Friend publicou, na "New Yorker" (13/10/ 2003), um artigo sobre a estranha freqüência com que a famosa ponte Golden Gate de San Francisco é escolhida pelos suicidas. Aparentemente inspirado pelo artigo, Steele, durante um ano inteiro, filmou a ponte, sem parar. Houve 24 suicídios e várias tentativas que foram sustadas também graças à equipe de Steele (eles informavam a polícia quando detectavam, de longe, comportamentos "suspeitos").
Além disso, Steele entrevistou parentes e amigos próximos dos suicidas. O tom é justo, comovedor e tocante. O filme evita o caminho mais fácil, que consistiria em nos acusar sub-repticiamente, como se, quando alguém decide morrer, fôssemos todos, de uma maneira ou de outra, responsáveis. A maior qualidade do filme é, ao contrário, a sobriedade. O ato suicida guarda sua dignidade porque, apesar das explicações dos próximos, ele permanece misterioso e radicalmente imprevisível, como qualquer ato humano.
No dia 29 de agosto, o UOL publicou a notícia seguinte: na Áustria, dois homens viviam junto, em um apartamento-albergue dos serviços sociais. Brigaram. Um deles, Robert, psicótico em remissão, matou o outro; depois disso, ele abriu o corpo e o crânio do companheiro e comeu órgãos internos e cérebro. Quando a faxineira chegou, Robert, com a boca ensangüentada, comentou: "Veja só o que aconteceu". A porta-voz do Fundo Social de Viena declarou: "Se tivéssemos a menor idéia de que este tipo de coisa pudesse acontecer, teríamos transferido Robert para outro local e exercido um acompanhamento mais adequado". Alguém, na Áustria, deve estar criticando severamente o psiquiatra, o psicólogo ou a assistente social que, algum dia, afirmaram que Robert podia ser devolvido à sociedade.
Pensei nas poucas vezes em que, num tribunal, tive de dizer, em nome de minha "ciência", se alguém, a partir de então, seria ou não um bom pai ou uma boa mãe.
A verdade é que, uma vez os fatos acontecidos, somos capazes de interpretar, de encontrar explicações e mesmo de assumir responsabilidades e culpas que temos ou não temos. Mas tudo isso apenas retroativamente.
Em matéria de comportamento humano, somos quase sempre incapazes de prever. Não sei se é um mal: talvez essa ignorância seja a condição de nossa liberdade.
Folha de SP, 06/09/07
QUANDO EU tinha 12 anos, um tio meu se suicidou. Era um tio de quem eu gostava e que gostava de mim. Ele enfiou a cabeça no forno e abriu a torneira do gás. Deixou uma nota, sucinta, que dizia: "Suicídio por razões profissionais e amorosas".
Meus pais não esconderam de mim as circunstâncias da morte do tio e me mostraram seu bilhete. Mesmo assim, imaginei perceber, em meus pais, uma certa vergonha. Isso, porque, no fundo, eu os culpava.
Foi a grande crise na minha idealização dos meus pais e, por conseqüência, na tranqüilidade de meu mundo: aparentemente, a amizade e o amor que eles ofereciam não tinham sido suficientes para dar a meu tio a vontade de continuar vivendo.
Nada me garantia, portanto, que eles saberiam fazer o necessário para que eu estivesse a fim de viver.
Foi assim que o luto pelo suicídio do meu tio foi também o fim de minha infância. Mas, em regra, quando se suicida um próximo de quem gostamos e que gostava de nós, não atribuímos vergonha e culpa a terceiros: esses sentimentos surgem em nós, ao descobrir que nossa presença e nosso amor não bastaram para que o outro quisesse viver. Em alguns casos, essa ferida nunca cicatriza.
Quando o suicida é nosso pai ou nossa mãe, o sentimento de não termos sido a razão suficiente para ele ou ela viverem fica conosco para sempre, como um fundo melancólico, como a sensação de uma insuficiência essencial ou de uma impossibilidade de sermos amados.
Quando o suicida é um filho ou uma filha, a perda (irreparável, pois o luto pelos nossos descendentes é contra a ordem das gerações) é acompanhada pelo sentimento de um fracasso, como se não tivéssemos conseguido transmitir o básico: a vontade de viver. Deve ser por isso que os monoteísmos consideram o suicídio como um pecado contra o criador: o suicida demonstraria o malogro de Deus. Assisti ao filme "A Ponte", de Eric Steele, e espero que continue em cartaz. Em São Paulo, já passa em apenas uma sala, duas vezes por dia.
Alguns anos atrás, Ted Friend publicou, na "New Yorker" (13/10/ 2003), um artigo sobre a estranha freqüência com que a famosa ponte Golden Gate de San Francisco é escolhida pelos suicidas. Aparentemente inspirado pelo artigo, Steele, durante um ano inteiro, filmou a ponte, sem parar. Houve 24 suicídios e várias tentativas que foram sustadas também graças à equipe de Steele (eles informavam a polícia quando detectavam, de longe, comportamentos "suspeitos").
Além disso, Steele entrevistou parentes e amigos próximos dos suicidas. O tom é justo, comovedor e tocante. O filme evita o caminho mais fácil, que consistiria em nos acusar sub-repticiamente, como se, quando alguém decide morrer, fôssemos todos, de uma maneira ou de outra, responsáveis. A maior qualidade do filme é, ao contrário, a sobriedade. O ato suicida guarda sua dignidade porque, apesar das explicações dos próximos, ele permanece misterioso e radicalmente imprevisível, como qualquer ato humano.
No dia 29 de agosto, o UOL publicou a notícia seguinte: na Áustria, dois homens viviam junto, em um apartamento-albergue dos serviços sociais. Brigaram. Um deles, Robert, psicótico em remissão, matou o outro; depois disso, ele abriu o corpo e o crânio do companheiro e comeu órgãos internos e cérebro. Quando a faxineira chegou, Robert, com a boca ensangüentada, comentou: "Veja só o que aconteceu". A porta-voz do Fundo Social de Viena declarou: "Se tivéssemos a menor idéia de que este tipo de coisa pudesse acontecer, teríamos transferido Robert para outro local e exercido um acompanhamento mais adequado". Alguém, na Áustria, deve estar criticando severamente o psiquiatra, o psicólogo ou a assistente social que, algum dia, afirmaram que Robert podia ser devolvido à sociedade.
Pensei nas poucas vezes em que, num tribunal, tive de dizer, em nome de minha "ciência", se alguém, a partir de então, seria ou não um bom pai ou uma boa mãe.
A verdade é que, uma vez os fatos acontecidos, somos capazes de interpretar, de encontrar explicações e mesmo de assumir responsabilidades e culpas que temos ou não temos. Mas tudo isso apenas retroativamente.
Em matéria de comportamento humano, somos quase sempre incapazes de prever. Não sei se é um mal: talvez essa ignorância seja a condição de nossa liberdade.
Folha de SP, 06/09/07
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