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04 março 2008

ônibus 174 - José Padilha

Acabei de assistir o filme. Já tinha visto trechos. Mas realmente não fazia idéia de como o filme era bom e de como a história é trágica. trágica, trágica.

Me impressionou especialmente a lucidez de uma das reféns, uma mocinha que é praticamente a principal narradora do filme. Uma moça de então 19 anos, que conseguiu enxergar em Sandro um ser humano e conseguiu compreender ali, naquele momento, a tragédia que ele protagonizava, na qual ela, Geísa e as demais reféns eram meras coadjuvantes.

Quanto mais eu estudo o crime mais eu me supreendo, mais eu me emociono, mais eu choro, mais eu fico indignada. Tento me mexer. Tento fazer a minha parte. Mas eu sozinha, aqui, quase impotente, eu não sou nada.

Ou todos nós assumimos as nossas responsabilidades, ou seremos, sempre, como Geísa: coadjuvantes de uma tragédia.

12 fevereiro 2008

O blogger andou dificultando minha vida, por isso demorei tanto pra postar.
O post abaixo (das flores) foi escrito há um tempão..

Bem, updates de uma mestranda tempo integral: não sou mais mestranda tempo integral. acabei. As ultimas 48 horas escrevendo virei praticamente direto; o último capítulo ficou com duas notas de rodapé sem pé nem cabeça (uma não terminada e outra repetida no texto logo acima), mas acabei. Até que não ficou ruim, sabe? 200 páginas!!! e eu achei que teria dificuldade pra escrever 100...

Até emagreci: duas pessoas comentaram e ontem me pesei: realmente estou um quilo mais magra. Incrível, considerando a quantidade de chocolate que eu comi.
Nesses 2 meses trancada em casa acho que assisti uns 30 filmes. Assisti a tetralogia dos Contos do Eric Rohmer, que eu sempre quis. Adorei. Assisti vááárias comédias românticas (se precisarem de indicação, é só falar) e várias comédias tout-court. Assistam O Closet, recomendo fortemente. Também adorei Italiano para principiantes. Assistia tudo que me fizesse distrair do mestrado durante os momentos de alimentação.

Tive a sorte de ter a companhia do meu irmão até o final de janeiro, o que ajudou a suportar as madrugadas adentro.

Tive também um namorado incrivelmente lindo e fofo que me arrancou de casa quando eu já não aguentava mais escrever e que aceitou os meus nãos quando precisei dizê-los, inclusive o 'não vou poder viajar no Carnaval'.

Agora estou me dedicando à minha nova rotina como professora e tentando me organizar para não precisar passar 32 horas por semana me preparando para dar 8 horas de aula. Mas acho que a conta não deve ser muito menos que isso. Cada hora aula requer pelo menos 2 horas de preparação no começo. Pelo menos. E considere que são 4 matérias diferentes.... Já viu. Tudo bem. Ano que vem estarei craque. :)

Acho que, a despeito das cabeçadas que dei nos primeiros 4 anos de formada, sou bastante sortuda.
Agradeço a todos que me apoiaram nesse processo. Que pensaram em mim, que me ligaram, que me escreveram.
Agora é hora de começar um novo começo. :D
Engraçado, não sei porque, meu dia está estranho.
Hoje saí atrasada para devolver livros na biblioteca (o prazo era até meio-dia, e eu acordei pontualmente ao meio-dia), resolver coisinhas no centro da cidade, etc. Como saí atrasada, saí sem comer. Nada, nem um gole dágua.
Fui ao centro, descobri que tenho que pagar uma taxa de 60,00 pra depositar minha dissertação, como se não bastasse os R$ 800,00 que vou gastar com a impressão e encadernação. Baratinho, baratinho. Não podiam deixar a gente depositar encadernado em espiral e só uma cópia pra biblioteca em capa dura??? A gente tira dinheiro daonde pra fazer esssa coisas? Mestrandos sem bolsa, façam uma poupança pra encadernação.

Fui almoçar às 15h, quase desfalecendo. Cheguei em casa e descobri que não vou poder juntar minha tabelona grandona na dissertação, porque custa uns 25 reais cada cópia (ela tem meio metro de altura). Isso daria mais 250 reais no orçamento. Vou ter que picar a tabelona em pequenas tabelinhas. Pena. Perde toda a graça e o impacto do que me custou 3 meses pra fazer. Hmpf!
Fiquei consertando minha tabela pra poder picá-la, mas estava esquisita, não sei o que, uma angústia, uma agitação, não sei o que.

Banho, pensei. preciso de um banho. Pra me aquecer (está frio aqui, em pleno janeiro, é praticamente inverno esses dias), pra relaxar um pouco e voltar pra minha dissertação, que não acaba nunca. Eu que achei que ia ter dificuldade pra escrever 100 páginas vou entregar um trabalho até grande demais pro meu gosto, quase 200. Sou prolixa, eu sei. Sempre fui.

Quando saí do banho minha mãe ligou. Disse que tinha mandado um presente pra mim.

Pronto. Quando cheguei na portaria, desabei. O choro que tava engasgado na minha garganta faz dias, de tensão, de medo de não dar certo, de medo do novo, medo de ser professora e finalmente concluir o que eu comecei há 03 anos, medo de assumir uma turma só minha, mas ao mesmo tempo entusiasmo por finalmente conseguir um emprego numa faculdade ANIMAL (em duas, talvez, daqui a umas semanas saberemos) e ser chamada de PROFESSORA, e não de doutora, que eu acho brega e não me identifico (doutora só quando fizer doutorado), esse choro engasgado veio e agora não consigo parar de chorar.

Vejam o arranjo lindo que eu ganhei (com chocolate e tudo):


Junto nesse choro vem tantas outras coisas mais... Obrigada, mãe, obrigada, pai, por tudo.
Preciso me recompor agora, fazer um café, tentar controlar o meu choro porque ainda tenho um capítulo e meio pra escrever até o final do carnaval.

Meu santo acupunturista Jaime vai me render. Eu sei.

Meu ano novo começa dia 11 de fevereiro. Ou amanhã, quando vou fazer minha primeira reunião como Professora, lá em Campinas. Além de terminar a dissertação, ainda tenho mais uma prova de fogo pra passar em breve, talvez (espero que não) até antes do dia 11. Desejem-me boa sorte.

25 janeiro 2008

Hoje eu entendo porque as estatísticas de suicídio são tão altas no inverno de certos países europeus.
Tenho ido dormir cada vez mais tarde (ou mais cedo, dependendo do ponto de vista). A noite passada fui deitar às 6 (da manhã de hoje), e ainda levei mais um bom tempo pra pegar no sono, com mil idéias na cabeça sobre atividades para fazer com os alunos que, se tudo der certo, serão da minha primeira turma como professora de Direitos Humanos. :D
Hoje acordei às 15h. O dia estava frio, feio, parecendo inverno. Não vi ninguém. Só falei com pessoas pelo telefone. Às 20h escureceu. Tive 5 horas de luz hoje na minha vida. E nenhum contato com pessoas ao vivo, exceto na breve ida ao supermercado e à locadora.
Ninguém merece!!!!
Eu tenho andado tão enfiada em casa que levo meia hora me arrumando para ir... à padaria (e ao supermercado). Até rimel passei outro dia para ir comer um sanduba com o meu irmão na padaria aqui perto. Tudo bem que não é uma padoca daquelas pé-sujo, mas é uma padoca!!!
Ainda bem que acaba! e eu nunca vou me mudar pra Alemanha! nunca!

16 janeiro 2008

Carl Warner - 'foodscapes'



Olha que demais: o cara cria paisagens só com comida. Não é incrível?



Mais fotos vc vê clicando aqui
(Site BBCBrasil.com)

09 janeiro 2008

Não sou exatamente palmeirense, mas isso é engraçado

Segundo Rubem Alves, no seu livro O Futebol levado a riso, o futebol só tem sentido mesmo pelo prazer de xingar o time adversário.
Não sei se todo mundo acha isso... mas esse momento no Palmeiras, que tinha acabado de perder a vaga na Libertadores... é realmente muito engraçado.

Vejam aí: campo vazio. Nada de bola rolando. Palmeiras perdeu a vaga na Libertadores. Mas o jogo do Corinthians ainda tava rolando em outro estádio. Todo mundo ouvindo pelo radinho, celular, sei lá. De repente, o estádio explode.

Os corinthianos que me perdoem... Lu, desculpaí, mas é muito engraçado.

Meditação

Nesses tempos de estar em casa escrevendo dissertação, meu passatempo favorito entre as paredes do meu apartamento tem sido... lavar a louça. Entre outras tarefas domésticas que estou descobrindo que podem me dar prazer.
Bem, não vamos chegar ao extremo de dizer que eu gosto de passar o pano chão ou de limpara privada... eu que nunca fui chegada a fazer nada em casa, já que sempre tivemos empregada. Mas além de estar confinada em casa e pagando um bonde para não sair, já que cada saída me desconcentra e rouba horas preciosas na frente do computador, eu estou sem grana, o que significa que faxineira aqui só vem de 15 em 15 dias... então, tenho que me virar para manter o local, senão realmente limpo, pelo menos digno de se morar.
Daí que comecei a notar que estava tendo prazer em lavar a louça, coisa que nunca tive.
E dia desses, madrugada, pasmem! resolvi fazer uma coisa que sempre odiei, em parte pelo medo de acidentes domésticos: passar roupa. Peguei minha tábua, meu ferro a vapor (isso foi uma aquisição recente, antes o ferro aqui era arcaico, pesado pra caramba, o que ajudava a alimentar o medo de acidentes e a ojeriza à atividade...) e fui pra sala passar roupa.
Acho eu que essas atividades domésticas têm me servido como meditação. Ou sei lá, algum jeito de minimamente me desligar da atividade intelectual.
Meu cotidiano nas últimas semanas e que deve continuar até dia 08 de fevereiro, quando tenho que impreterivelmente mandar o material pra impressão e encadernação: acordar entre 11 da manhã e meio dia, tomar café assistindo tv, começar a trabalhar, parar pro almoço por volta das 16h, com direito a mais um pouquinho de tv, voltar a trabalhar até umas 20h, as vezes paro para ver a novela das sete, e depois vou direto até as 3 ou 4 da manhã, com pequenas pausas para a minha dolorida mão.
Comprei uma power ball para ver se me ajuda na tendinite, que tá pegando forte.
Mas agora, como disse meu irmão, tem que fazer que nem jogador de futebol: joga contundido, com o joelho fodido mesmo. Depois que acabar o campeonato vai resolver....

29 dezembro 2007

eu, meus medos, e esse calor

Eu nem sei direito porque sentei aqui agora em vez de estar na minha cama, naquele calor, cercada de xerox de teses e dissertações, sendo algumas ótimas, poucas excelentes e muitas medíocres.
Tava muito calor na minha cama. Fui tomar um banho fresco.
Tá muito calor aqui dentro da minha cabeça
E o medo
E o medo, tá foda
Hoje cheguei a dar uma surtadinha mental só porque não consegui manter contato com o meu namorado por umas 4 horas.
Aquela surtadinha básica que a imaginação, com um bocado de ansiedade, provoca em vc.
Nem vou contar para não parecer ridícula. Porque foi beeeem ridícula.
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Vontade de largar os 30 textos que ainda restam (brotam teses e dissertações de todos os cantos do meu apartamento) e ir embora encontrar meu ARN. ARN, a piscina, a represa e um pouco de amor, de tesão, de aconchego, desse aconchego que só o acordar do lado de quem vc gosta
É tão bom acordar do seu lado, ARN.
Queria conversar com vc hoje.
Li sua poesia nova hoje.
Queria hoje uma conversa daquelas de alcova, daqueles dias que estamos tão cúmplices que eu me emociono, daqueles dias em que nos compreendemos profundamente, em que olhamos nos olhos um do outro, em que vc conta
ADORO quando vc conta.
Vai ficar tudo bem

22 dezembro 2007

Taken

Não sei se alguém assistiu à mini-série Taken, que estava sendo exibida na Band nas últimas semanas. Achei sensacional.
O negócio é que me remete às perguntas loucas de sempre e que me incomodam tanto... mas para as quais nunca terei resposta...
Quando eu paro pra pensar sobre o sentido da vida, até que não é tão estranho. Quero dizer, é muito estranho. Nós humanos somos os únicos seres da Terra capazes de realmente ter consciência e refletir sobre isso. Mas até aí, tudo bem, temos a ciência, que nos explica que nascemos e morremos porque a Terra funciona assim mesmo. Porque é limitada, sua capacidade de manter bilhões de seres humanos vivos ao mesmo tempo é limitada, e se não morrêssemos naturalmente seria uma catástrofe. Temos que morrer. Para que outros vivam.
Mas e o universo? Não é realmente estranho? Já pararam pra pensar no universo? O que é isso, o que é isso? O que tem depois do universo? O que veio antes dele? E antes do big bang, havia o que?
Acho que nunca encontrarei respostas. Mas como diz a pequena Allie no final, temos que continuar fazendo perguntas...


PS: aqui dá pra fazer download da série inteira! Mas não sei se é confiável. Achei na busca do google. Tem outras séries nesse site também.

21 dezembro 2007

pintar ou fazer amor

Voltei a pintar
fazia 14 anos que eu não pintava. pra falar a verdade, até que tentei voltar pintar numa época que eu não tava nada bem. nessa época, tentei de tudo antes de recorrer ao psiquiatra: pintei, comprei cachorro... mas nada funcionou. abandonei as tintas de aquarela e os pincéis desde então.
esses dias precisei pintar novamente... depois conto por que.
estou escrevendo minha dissertação, estressada pra caramba, o prazo acabando e além de tudo esta semana estou na TPM. to triste, medrosa, sensível.
aí aproveitei que tirei as tintas do armário (várias estão secas!!! alguns tubinhos tive que quebrar no meio pra poder usar... mas deu certo) e comecei a pintar de novo. pra relaxar um pouco.
não sou muito boa nisso. não sei desenhar, mas consigo fazer pinturs com pontilhado e abstratas (risos). figuras geométricas também.
fiz 3 quadrinhos pequenos e hoje já tentei fazer um maior. tá meio estranho. mas na verdade o que importa é mesmo ir tentando.
vou tentando... e de vez em quando sai alguma pinturinha que preste
é que nem esse blog... eu vou escrevendo... vou tentando... e de vez em quando sai alguma coisa que presta.
se eu conseguir fotografo e depois boto aqui minhas pinturinhas.

15 dezembro 2007

A Pipoca - por Rubem Alves

"A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblê baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblê...

A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblê? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ - dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira..."

(Rubem Alves - O amor que acende a lua, p. 59.)

PS: Peguei no site dele! Lá tem mais! Aproveitem, pipocos!!!!

03 dezembro 2007

A água e a metrópole

Não é estranho que nós que vivemos na metrópole tenhamos nos esquecido de como é ter água por perto?
Nossa relação com a água é sempre intermediada por alguma barreira: já vem encanada, de dentro da torneira ou dentro de garrafinhas ou galões de água mineral. Ou então temos que ultrapassar os portões de um clube ou de uma academia para chegar a um reservatório de água clorada, tendo passado previamente por um médico em início de carreira para fazer o exame que garante alguma proteção contra micoses, otites e afins.
Para chegar até a água, nós, paulistanos, temos que nos deslocar até mais longe. Ir até o litoral... ou para alguma das represas, Guarapiranga, Billings.
O mais perto de água que temos por aqui são dois grandes 'não-rios' cortando nossa cidade, quase inacessíveis, sendo preciso atravessar uma avenida expressa (uma das Marginais), e pular uma barreirinha de concreto para chegar até uma massa de água fedida e perigosa.

Porque a cidade de São Paulo tem uma relação assim tão distante com a água é que estranhei e achei, na verdade, muito louco, a lagoa do Parque do Ibirapuera estar tão perto e tão acessível ao pedestre.
Quem chega ali na avenida não precisa sequer entrar no Parque. A lagoa está lá. Na beira da Av. Pedro Álvares Cabral. A dois passos do asfalto, quem quiser que escorregue pelo barranco, que é curto e não muito inclinado, e entre na lagoa para refrescar-se.
Não sei se é funda, não sei se é limpa. Mas é água, água perto de nós. Água no meio da cidade... sem barreiras, sem cerquinha e sem exame médico.

Simples assim

Quando a gente está sem grana tem que encontrar maneiras simples e baratas de se divertir. Meu dileto namorado ARN tem me mostrado algumas dessas maneiras, sempre silenciosamente, agindo mais que falando. Nos finais de semana ficamos um pouco em casa, simplesmente namorando e convivendo, o que não temos muita oportunidade de fazer durante a semana: ele faz sua imperdível pizza de abobrinha (hmmmmm), colocamos um som bom pra tocar, ficamos conversando, dançando, vendo filme, enfim, namorando, né?
As vezes saímos pra encontrar amigos e passear. Já fomos algumas vezes no Ibirapuera à noite...
Com ele já fui na Virada Cultural, à qual nunca tinha ido, e adorei.
ARN tem um olhar legal sobre as coisas, curte as coisas simples e me mostra um jeito bom de viver que eu não conhecia.
Este finde fomos duas vezes no Ibira para ver a Árvore de Natal.
A Árvore particularmente não me interessa muito não, acho meio sem graça. Já vi a da Lagoa no Rio e acho a de lá mais bonita...

Mas o que eu achei bonito mesmo foi a iluminação nas árvores. Fica um efeito lindo, um parque meio louco, doido, mágico, lúdico.... Dá vontade de entrar ali no meio das árvores, acho que a gente se sente meio num mundo de fantasia...
Vale a pena ir lá conferir. A foto é do ARN.

29 novembro 2007

Contardo dispensa apresentações. Demais.

CONTARDO CALLIGARIS

Ilhas desconhecidas

O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo, em nós, que não conhecíamos até então

QUANDO ERA criança, um senhor canadense, Mr. Evans, foi contratado por meus pais para "treinar" meu inglês. O método de Mr. Evans consistia em narrar grandes eventos da História (com H maiúsculo) como se ele tivesse sido uma testemunha ocular. Conseqüência: há detalhes íntimos de várias cenas famosas que não sei mais se são fatos ou fantasias de Mr. Evans.
Uma fonte de inspiração de Mr. Evans era a expedição de Lewis e Clark, que, entre 1804 e 1806, abriu o caminho do Oeste americano. Segundo Mr. Evans, em 7 de abril de 1805, deixando Fort Mandan para se aventurar no território desconhecido das grandes planícies, Lewis, pensativo, teria dito a George Gibson (o melhor atirador da expedição): "New land, George" (uma nova terra, George).
Nunca pude confirmar a veracidade da dita conversa. Mas essa frase, aparentemente trivial, foi incorporada no meu léxico familiar. A cada vez que, numa viagem de férias, saíamos do país, meu irmão e eu não parávamos de repetir: "New land, George". Ainda hoje, quando chego num lugar desconhecido, penso em Lewis e Gibson.
Mais tarde, meu irmão e eu passamos a usar a mesma expressão quando - numa festa, por exemplo - avistávamos mulheres que despertavam nosso interesse. Um dos dois, invariavelmente, levantava a mão espalmada, como se quisesse proteger os olhos do sol, e dizia: "New land, George".
Na literatura, não é raro que um corpo amado e desejado seja comparado à paisagem de terras incógnitas. John Donne, num de seus mais lindos poemas (do século 17), chamou sua amada de "minha América, minha terra recém-descoberta". De fato, há mesmo uma relação entre o amor e a verdadeira viagem. Vamos ver qual.
De vez em quando, tenho vontade de viajar. O que chamo de viajar não tem muito a ver com viagens de férias. Tampouco significa necessariamente desbravar terras virgens.
Encontrei a melhor definição do que é viajar numa maravilhosa e breve fábula de José Saramago, que acaba de ser publicada, "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras). O protagonista explica assim seu desejo: "Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver".
Viajar é isto: deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então. Sem estragar o prazer dos leitores, só direi que, no fim da fábula de Saramago, talvez o protagonista não encontre sua ilha, mas ele encontra uma mulher. A moral da história é incerta, entre duas leituras opostas.
Primeira leitura: quem casa não viaja (a não ser de férias); casar-se é desistir de viajar. É o que pensam, com freqüência, homens e mulheres casados. E é também o que os leva, às vezes, a se separarem. Quando achamos que o outro nos impede de viajar, ou seja, que ele nos priva da aventura de descobrir o que poderia haver de diferente em nós, o casal se torna nosso inimigo. Claro, na maioria dos casos, acusamos o casal de uma inércia que é só nossa.
Exemplo: anos atrás, na França, um amigo se interessava pelas pessoas que desaparecem sem razão aparente e refazem sua vida alhures, sob outro nome, como se tivessem sido vítimas de uma amnésia repentina. Em todos os casos em que meu amigo conseguira entrevistar esses "desaparecidos", os mesmos constatavam que, depois de seu sumiço, em poucos anos, eles tinham reconstruído uma situação de vida parecida com aquela que tinha motivado sua fuga.
Segunda leitura: o protagonista descobre que a mulher ao seu lado é a própria ilha desconhecida que ele procurava e que a verdadeira viagem é o encontro com um outro amado. Faz todo sentido, pois o amor e a viagem, em princípio, têm isto em comum: ambos nos fazem descobrir em nós algo que não estava lá antes.
O outro amado nos transforma. Tanto quanto a chegada numa terra incógnita, ele nos revela algo inesperado em nós.
Por isso, aliás, o viajante e o amante podem esbarrar em problemas análogos: às vezes, ao sermos transformados pela viagem ou pelo amor, não gostamos do que encontramos, não gostamos dos efeitos em nós do amor ou da viagem. Essa é, em geral, a única razão séria para se separar ou para voltar da viagem.
Moral dessa coluna (e talvez da fábula de Saramago): os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Agora, para amar, como para viajar, é preciso ter determinação e coragem.
ccalligari@uol.com.br

22 novembro 2007

Valeu sol!!!!


Valeeeeu sooolll!!!! Pelos 6 dias lindos na Bahia!!! Valeu!!!

Meu lado negão


Eu finalmente entendi o que a gringaiada sente quando chega na Bahia. Mais precisamente, em Salvador. O Pelourinho à noite é uma loucura, tem música pra todos os lados, e não é só pra turista não!!! O baiano adora música, os lugares estão sempre cheios de locais...
Na nossa noite mais pelourística fomos assistir a missa católico-afro da Nossa Senhora do Rosário dos Pretos...

Bebemos uma cerveja ali no bar Cruz do Pascoal...
E depois fomos ao show do Gerooonimo!!! que eu já comentei aqui, muita energia boa, cheio de locais.

Dali saímos para uma volta no Pelô. Logo que terminamos a subida da ladeira já tinha um batuque (esse era pra turista mesmo) do estilo Olodum, com todo mundo indo atrás, os negões fazendo coreografia e um outro vendendo os CDs. Uma delícia, dancei à beça. Tinha um casal sentado num bar que ficou só rindo da minha empolgação.
Depois fomos passear. Uns dois quarteirões pra lá esbarramos numa esquina com um pagode do bom, bem tocado. Paramos ali também, eu empolgada, dançando louca, e o ARN só achando graça da minha doidera. Improvisamos um forrozinho do tipo 'dançando de walkmen', bem ao estilo ARN, pianinho, pertinho, gostoso demais.
Logo mais à frente outro batuque e um pouco mais além numa praça vários bares com som ao vivo, axé music. Isso tudo num raio de uns 10 quarteirões.
A gringaiada pira mesmo....
E eu me empolguei com tanta baianidade e fiz o cabelo afro. Eu e as gringas. Ficou bom, não?

Probleminhas do cabelo afro

O único problema do afro foi a primeira noite. Dormir não foi fácil. Mas não tive dor de cabeça não. Só que acordei em pose de múmia, sendo que, em geral, durmo de lado...(risos)
Minto, foram dois problemas: ontem desmanchei o afro, porque os elastiquinhos já tavam soltando... Rapaz, lavei a cabeça inteira hoje...(porque só tinha lavado a parte solta, esse é outro problema... não dá pra lavar direito as tranças...) e caiu MUITO cabelo. MUITO mesmo. Não sei se porque foram 5 dias sem cair os cabelos da parte trançada (a gente sempre perde cabelo todo dia), mas caiu tanto que assustei...
Outra coisa: dá uma boa estragada no cabelo a trancinha. Muitos fios quebrados e bastante cabelinhos arrepiados como resultado.
Mas valeu!!! Quem sabe não repito qualquer hora dessas?
Só duvido que aqui em SP custe os mesmos R$ 20,00 que eu paguei lá. E olha que paguei caro... Tem gente lá que faz por 10 ou 15 pilas...

olha eu aí. não dá pra ver, mas tem umas gringas do meu lado fazendo também ;-)

20 novembro 2007

(Des)Igualdades e Preconceitos

Não tenho foto pra ilustrar isso, mas uma coisa me chamou a atenção em Salvador.... Nas praias, local mais democrático (em geral), muitos negros em Salvador. Na balada que a Jubs indicou, Geronimo, animal, muitas pessoas, em sua maioria negras e negros lindos, muita gente legal, um astral ó-te-mo, super me identifiquei. Acho que foi por conta desse dia que me empolguei e fiz o cabelo afro (ou semi-afro, já que não trancei o cabelo todo - achei que pra mim não ficaria bom...)... Porque as moças são simplesmente lindas, estilosas e coloridas. Eu descia com um largo sorriso de felicidade as escadas que era arquibancada e recebia em troca outros largos sorrisos e alguns comentários. Muito bom...Éramos nós os estranhos ali, os estrangeiros, mas em nenhum momento senti-me discriminada ou hostilizada por ser uma turista entre os locais. Pelo contrário, a energia era simplesmente uma delícia. Havia alguns brancos ali no meio, mas realmente não senti nenhum tipo de hostilidade.
Alguns dias depois, em busca de uma comida diferente de acarajé, abará, churrasquinho de bode e carne de sol com purê de aipim (passamos uma semana inteira nos alimentando de petiscos!!!, cerverja e água de coco!!! asssim não há reeducação alimentar que resista!...) resolvemos encerrar a viagem num barzinho ali perto de onde nos hospedamos... um bar mais arrumadinho, do tipo daqueles que a gente encontra igual aqui em SP, no Rio, em BH, qualquer lugar, portanto. Os preços eram parecidos com os preços daqui. R$ 10,50 uma porção de pastel com 8 unidades.
Entre um pastel de camarão e um de siri, notei que não havia negros ali. Ou melhor, havia sim. Poucos, em geral um dentre 4 ou 5 brancos, nunca um grupo só de negros, nunca o suficiente para que notássemos sua presença.
Fiquei intrigada com isso... Não era um local de turista não, era um local de locais.
Pesquisando, a
chei na internet: 64,8% da população de Salvador é de pardos e 21,8% de negros (ao que parece, são dados do IBGE).
Porém, "segundo estudo do professor da UFRJ Marcelo Paixão, que coordena o Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais de Relações Raciais, preparado para o Dia Nacional da Consciência Negra (...), em Salvador, (...) a média mensal recebida pelos negros é de R$ 715, ou apenas 52,9% do valor recebido pelos bancos, de R$ 1.350."
Ainda estou com isso entalado na goela.... Preciso pensar mais a respeito. Mas me incomodou essa ausência.
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Na minha turma da SanFran tinha somente dois ou 3 negros, no meio de uns 200 brancos. Uma vez, conversando com um desses amigos, notei que ele só tinha amigos brancos. Na verdade, ele é um branco, como uma vez disseram do Ronaldo, jogador. É um negro branco. Faz a gente pensar...

fonte: site Gazeta do Povo online