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29 outubro 2011

Sobre a fragilidade da vida

Já tive uma internação hospitalar que quase me levou desta pra melhor. Além de um derrame pleural grave que não me deixava respirar, e um pericárdico moderado (consegui evitar que drenassem meu coração argumentando com o médico da UTI e sugerindo - que ousadia - um diurético em vez da perigosa drenagem. E deu certo! ), minha consciência durante o tempo todo evitou uma parada cardíaca certa por hiperssensibilidade a  um remédio - recebi 1/10 da dose prescrita, e meu batimento cardíaco despencou de 120 pra 60. Imagina se tivessem me dado a dose inteira. Enfim, não fossem os avanços da medicina e - vai saber - um anjo "bão", é bem possível que eu já estivesse do lado de lá desde 2004.
Daí que, de vez em quando, me lembro disso - por uma série de motivos. Porque eu ainda hoje tenho medo de ter uma doença auto-imune (foi o diagnóstico não confirmado na época, mas tenho marcadores auto-imunes tipo FAN + e anti-Sn), porque cada vez que eu tenho uma dor na articulação eu fico pensando se não é lupus ou alguma outra das inúmeras variações de doenças auto-imunes existentes por aí. Cada vez que meu sistema gastro-intestinal não funciona direito (será que é doença de Chron? será doença celíaca, associada frequentemente a outras auto-imunes? esta ainda preciso investigar... de verdade. e logo), cada vez que eu tenho uma gripe. Por conta disso, mudei e continuo mudando meu estilo de vida. Comendo cada vez melhor, mais orgânicos, mais frutas, mais verduras. Tentando (e, nem sempre, conseguindo) me manter mais calma, me cobrar menos, ser menos certinha. Fazendo dança indiana, que me dá concentração e estabilidade. Procurando meu balanço - olha a tattoo aí, pra me lembrar do equilíbrio, da leveza, da beleza e da impermanência das coisas.
E impermanente é a vida. Puff! É frágil!
Há meia hora eu presenciei um acontecimento muito triste: um homem e uma moça (parece que eram pai e filha) foram atropelados há 5 quarteirões da minha casa. Tivesse saído uns 10 minutos antes, podia ter sido eu. Passo a pé (como hoje) tantas vezes por semana nesse mesmo cruzamento. Me arrisco, às vezes, até. Quando cheguei, o SAMU já estava lá fazendo o atendimento. O homem morreu. A moça foi levada pro hospital, ferida. O motociclista - também ferido, moribundo - quase foi linchado por dois parentes do morto (e isso eu vi, horrorizada): um deles pulou em cima da maca, que estava no chão, com os dois pés. Pulou mesmo. Outro socou e chutou o motociclista. Eu já havia chamado a polícia, minutos antes, avisando que as pessoas começavam a se alterar. Demoraram um tempão a chegar.
Fiquei lá um tempão, meio chocada, vendo o desespero da família chegando ao local e constatando a morte de um familiar querido. Perguntei pra quem viu, o que foi, como foi.
Vim pro shopping - como sempre, trabalhar e estudar no café da livraria - triste. Ao mesmo tempo em que me entristece, esse acontecimento me ensina algo: que preciso, constantemente, lembrar de como a vida é frágil, de que já quase a perdi uma vez, e de como fazemos tempestade em copo d'água por tão pouco, às vezes. Preciso me lembrar, todo dia, e agradecer, porque estou viva, e tenho saúde, e tenho família, amigos, casa, comida boa, roupas bonitas, posso passear, posso estudar, posso trabalhar.
Com poucas exceções, que eu sequer gosto de imaginar, poucas coisas podem me acontecer que valham a pena chorar muito, sofrer muito, se acabar muito.
Estou viva. E sou feliz a cada dia - mesmo nos dias em que nada muito excitante acontece.
Obrigada!

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