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21 fevereiro 2013

o anti-exemplo


Hoje fui fazer um exame admissional. Pra quem nunca fez, em geral é uma consulta ultra-rápida com um medico, em que ele te atende em menos de 5 minutos, te faz meia dúzia de perguntas e te examina por 0,5 segundos e te libera.
Normalmente, é assim.
Meu exame admissional durou algo entre 40 e 50 minutos. Desses, 99% do tempo o sujeito falou. Como se eu não tivesse nada pra fazer na vida (precisava loucamente dormir, já que estava de pé desde as 4:30 da matina, já tinha dado 4h/aula e ainda tinha a primeira aula da noite pra terminar de preparar), assim que me perguntou o que eu fazia, ao que respondi ser professora de Historia do Direito e Filosofia, ele começou a falar.
Falou sem parar durante 40 minutos. Me contou toda sua vida acadêmica. Estou no liceu de ciências, colégio mais difícil da cidade. Sabia tudo de geografia e historia, tanto que precisava comprar livros importados pra poder estudar, porque o conteúdo dos livros brasileiros ele já sabia. Aos 17 anos, prestou vestibular e foi aprovado simultaneamente no Direito do Largo São Francisco (em 2 lugar) e na prova para a carreira diplomática do Rio Branco – só 3 candidatos haviam sido aprovados.
E o que aconteceu?, perguntei - afinal, eu estava ou não em um consultório médico?
O meu pai não me deixou fazer nenhum dos dois cursos. Ele era um médico muito famoso e importante, e me obrigou a fazer medicina.
Mesmo assim, ele me conta que foi estudar na Sorbonne, que morou na Europa por uns 2 anos, que era amigo de Delfim Netto e que muitas vezes lhe ofereceram trabalhos interessantes por conta de sua cultura e de suas relações, trabalhos que ele nunca pode aceitar. Diz que seu sonho era fazer carreira diplomática e política.
Este homem tem 70 anos de idade. Aos 70 anos, ele me falou 40 minutos sobre a sua frustração ainda não resolvida de não ter feito a carreira de diplomata que queria fazer. Aos 70 anos, ele ainda culpa seu pai. Aos 70 anos, ele certamente ainda se pergunta por que não teve coragem de enfrentar o pai? Por que não teve coragem de mudar a própria vida? Por que está hoje sentado na cadeira de um consultório de uma cidade no interior de São Paulo quando podia ter ganhado o mundo, conhecido lugares, pessoas, experimentado sabores, cheiros e paisagens.
Querendo se convencer do contrario, ele me diz ao final que acha bom que não tenha feito, porque não concorda com nada do que ele vê hoje na política. Que fora um ou dois caras aí, acha tudo uma grande decepção. Seria preciso ter um lobo cerebral a menos pra acreditar nesta parte tão destoante de seu discurso, que não passa de uma muito mal sucedida tentativa de convencer a si próprio do contrario do que dizem todas as suas células – que ele se arrepende todos os dias de não ter realizado o seu sonho.
Eu tenho 36 anos e já não aguento mais. E se antes eu não sabia que podia ter enfrentado e vivido de forma diferente, hoje eu sei. Sabendo, agora as decisões sobre minha vida passam a ser escolhas conscientes (ainda que motivadas pelo mesmo medo). Antes, pra ser sincera, não via isso como uma escolha, porque a perspectiva de efetivamente realizar o sonho não estava no meu horizonte. Eu não sabia que era possível.
Ao olhar para o meu horizonte, informada, consciente, já tendo refletido e sofrido e me arrependido de tantas coisas que não fiz, chegar aos 70 me lamentando não é, definitivamente, algo que eu possa cogitar.
Ou bem eu aceito, e não mudo, e resolvo, e resolvido está, ou bem eu corro atrás. Em qualquer dos casos, seja qual for o desfecho, a partir de agora, a responsabilidade é minha – embora seja tentador continuar culpando os outros.
Abandonar o meu sonho me apavora ainda mais do que o medo de realizá-lo.
Criar coragem pra realizar o meu sonho dá um medão. E se não der certo? Mas a perspectiva de estar me lamentando até o final da vida - espero – me assusta mais. 

2 comentários:

  1. Estou contigo. Mas um pouco à frente: tentei o sonho, mas não tem dado certo. Nessas horas a gente pensa se todo o sonho precisa mesmo ser realizado, ou se, dentro da cabeça, ele parece mais bonito e seja lá o seu lugar.
    Olhando o teu texto (tão bem escrito!) sobre o médio, penso que, sim, eu precisava tentar. Nem que seja para, depois, voltar ao ponto de partida.

    Beijos e boa sorte na tua jornada, Emília.

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    1. Fe, a gente nunca volta ao ponto de partida, eu acho! A gente cresce, mesmo que nao consiga chegar exatamente onde queria. O segredo (acho) é viver um dia depois do outro. A gente pode nao conseguir 100%, mas de repente se conseguir 80%, poxa, já tá legal. E saber de que sonhos a gente pode abrir mao e quais nao dá. O que, no meu caso, nao dá, é nao fazer por medo, e passar a vida inteira culpando os outros por isso. Eu vejo isso quase todo dia na minha vida, esta muito perto de mim. Nao quero. Se for pra alguem ser responsavel pelo meu sucesso/insucesso, pela minha (in)felicidade, que seja eu mesma :)
      obrigada pelo comentário! :)

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