Eu sempre sonhei em trabalhar na ONU ou em outras grandes organizações internacionais. Mas não sabia como. Quando comecei minha carreira, tinha pouquíssimas organizações internacionais no Brasil e muito pouca informação sobre como chegar lá. A pessoa que procurei e que tinha uma inserção nessa area não soube me ajudar .Levou um bom tempo (anos, muitos anos) até as coisas começarem a clarear e eu descobrir que (a) eu podia chegar la; (b) como fazer pra chegar la.
Ainda nao estou la, mas agora ja percebi que, se for isso que eu realmente quero (ando tendo duvidas!), é possível conseguir e estou no caminho certo.
Uma das principais coisas que me fez sair do modo "sonho" e partir pro modo "estou a caminho porque sei que é possível" foi pensar de forma muito concreta o que era necessário para chegar lá. Comecei a observar as pessoas ao meu redor que estavam nesse caminho ou ja tinham chegado lá, e ver o que elas faziam.
A primeira coisa que eu percebi é que só o inglês não era suficiente. Eu precisava de fluência em outra lingua. Daí, quando tirei meu sabático, em 2012, fiquei um mês no Uruguay estudando espanhol. Continuei por mais um ano com a mesma professora, por Skype, e em 2013 voltei la, fiz mais uma semana intensiva e matei mais uma unidade, sempre com 95 a 98% de nota no exame escrito e oral. Ainda não concluí o curso, mas ja sou fluente - em março desse ano, apresentei em espanhol em um congresso no Peru e posso garantir que meu espanhol era melhor do que o de muitos brasileiros (inclusive gente que estava dando treinamento) e que era do mesmo nível de uma oficial do Unicef no Brasil. Recebi um cartão de uma oficial que trabalha na sede peruana de outra INGO internacional elogiando meu espanhol e dizendo pra eu mandar meu CV pra ela. A próxima língua que vou aprender é o francês, e ja sei que isso vai incluir um ou dois meses na França estudando. Não sei quando ainda, mas vai rolar.
A segunda coisa que percebi era que todo mundo que tinha carreiras verdadeiramente internacionais tinha estudado fora em grandes universidades. Como eu já tinha mestrado e doutorado, estava fora de questão fazer mais um curso acadêmico (não descarto um pos-doc mais adiante... bem mais adiante!). E alem disso eu queria um treinamento técnico, sem tese pra escrever. Em um congresso aqui no Brasil, no final de 2013, conversei com uma brasileira que trabalha na ONU em NY e pedi dicas de formação. Ela me recomendou uma no Canadá. Daí, fui pro Canadá ano passado e fiz esse, que é um dos melhores cursos do mundo na minha área. Investi tudo que eu tinha na poupança nesse curso e nos 40 dias que fiquei lá - emendei com uma semana em Washington para fazer networking em uma organização para a qual presto serviços.
A terceira coisa que eu percebi era que precisava investir um tempo considerável fazendo networking. Como eu sou consultora, as pessoas precisam saber quais as minhas competências e formações, o que eu tenho a oferecer e o que eu quero fazer. Então, investi pesado nisso, seja integrando associações, mandando CVs pra pessoas com quem conversei em congressos, mandando mostras do meu trabalho, postando nas redes de que sou parte, mandando papers para congressos, procurando consultorias ja estabelecidas na minha area de trabalho etc. Sao muitas horas por mês investidas nisso.
A quarta coisa que eu percebi era que faltava mão de obra especializada na minha area nos países da Africa Lusofona, e que esse era um mercado potencial para trabalhar. Comecei a focar em editais para trabalho em Angola, Moçambique, etc.
Um ano depois do curso, 6 meses depois de quase ter desesperado por não ter dinheiro para pagar as minhas contas (tive que fazer um empréstimo no banco), a minha vida esta assim:
- recebi um convite para dar um workshop junto com um treinador internacional na maior conferencia brasileira da minha area (trabalho gratuito que me da projeção)
- fui contatada para dar um workshop para a sede latino-americana de uma organização internacional (esse eh um trabalho pago)
- fui indicada para ser líder de um grupo temático de uma associação internacional da qual eu faço parte. como consequência, eu: - vou pra Tailândia em outubro para a conferencia dessa associação, que sera realizada junto com uma conferencia de uma agencia da ONU; - revisei os resumos submetidos a conferencia (esse trabalho é voluntário e me da projeção internacional e uma viagem com tudo pago pra Tailândia de uma semana, que eu pretendo emendar com alguns dias de descanso. La vou conhecer mais gente ainda, do mundo todo, alem de ter contato com grandes nomes da minha area.)
- nos últimos dois meses escrevi duas propostas de trabalho (esses são trabalhos não remunerados que fazem parte da vida de um consultor) com uma organização internacional à qual sou associada e com uma das maiores consultorias da minha area do Brasil. E esta semana estou escrevendo minha segunda proposta de trabalho como membro de um time internacional, para uma consultoria em Angola.
- fui contratada como consultora local por uma das maiores consultorias canadenses da minha area e trabalhei mês passado com uma consultora canadense muito experiente
- estou trabalhando desde janeiro com outra grande consultoria, referencia na minha area
- a cereja do bolo? uma head-hunter me procurou há 3 semanas me chamando para um processo seletivo em uma das instituições referencia em direitos humanos no Brasil.
Considerando que eu larguei um emprego remunerado de professora universitária, com carteira assinada em uma das maiores, mais tradicionais e mais respeitadas universidades do Brasil, ha menos de 2 anos, e mijoguei em uma area nova de trabalho quando eu tinha apenas um contrato na mão (hoje tenho 4)... eu acho que ta bom, ne?
Queria compartilhar com voces - especialmente com quem me acompanha há muitos anos e sabe o quanto eu tive que ralar - e ter coragem - para tomar as decisões e dar os passos em direção aos meus sonhos.
E vocês, tao deixando de sonhar e passando a realizar?
Nenhum comentário:
Postar um comentário