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26 julho 2005

Choro

A minha avó morreu. Eu não estou acabada nem super triste, o que catolicamente falando é realmente um horror. Mas não posso fazer nada. Eu não muito era ligada a ela, exceto pelo sangue e por um pouco de afeição que cultivei durante esses últimos anos em que ela esteve morando com meus pais. Mas ela era causa de tanta discórdia e sofrimento na minha casa que não consigo sentir senão alívio pelo fim. Também fico aliviada por ela ter parado de sofrer, já que da última vez que a vi já não era mais aquela italianona fortona de antes. Tinha virado uma velhinha doente.
Ela nunca teve vontade de viver, pelo menos nos últimos anos. Claro, tinha uma depressão tão forte que remédio nenhum fazia efeito. Só fazia se lamentar pela droga de vida que ela levava agora e pela merda de vida que tinha tido até então, com meu avô que a traía enquanto ela lavava e passava (com ferro em brasa) roupa pra fora. À noite ainda catava feijão à luz de lamparina.
Contava que, com o dinheiro que conseguiu ganhar, formou o único filho doutor, meu pai, que teve o ímpeto de dizer 'quero ser médico' - contra a vontade do pai - e, ao contrário dos outros irmãos, foi lá, estudou e se formou. Os demais estão por aí, penando em situação financeira complicada....
Além da depressão, ela tinha dezenas de doencinhas incuráveis pelos métodos normais da medicina, uma vez que praticamente todas eram psicossomáticas: fazia todos os exames, nada aparecia; tratamentos de último tipo, nada funcionava. Sofria, dor aqui, dor ali, tontura, dor de estômago, intestino absolutamente preso, dor de cabeça, as pernas que estão bambas... De repente, sumia aquele sintoma e aparecia um novo, igualmente imaginário. É incrível o poder que a cabeça da gente tem de criar o belo e de destruir aos outros e a nós mesmos.
Nos últimos tempos, meu pai a transferira para uma casa de repouso em Bauru, porque em Botucatu não havia uma que prestasse e não dava mais pra ela ficar lá em casa: precisava de assistência 24h, quase não saía mais da cama. E acho que depois que ela foi pra lá, acabou o restinho da vontade de viver que ela ainda tinha. Sem o filho por perto a dar-lhe um pouco de atenção na hora das refeições, sem parentes, sem amigos, o que fazer, senão morrer?
Quando falei com meu pai no sábado à tarde eu estava viajando. Liguei para dizer-lhe que tinha chegado bem, e ele me contou que acabara de voltar de Bauru, e que a havia transferido mais uma vez para o hospital, mas que ela estava bem. Pela seiláeuqualésima vez, cansado, triste, me disse: 'não acaba nunca, é o meu calvário'.
Acabou.

2 comentários:

  1. Anônimo7:18 PM

    O que seu pai passou é um inferno que eu espero que você nunca entenda muito bem. Eu realmente sinto muito por sua vó, seu pai e também por você.

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  2. Anônimo11:50 AM

    Sei lá... Te entendo, pq uma semana antes foi a minha vez de perder a avó - paterna tbém, por sinal. Pelo menos o sofrimento de ambos acabou... Vamos olhar o lado positivo das coisas, pq senão a gente pira ou dá um tiro na cabeça.
    Bitocas!!

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