Ontem vi meus amigos carregando o caixão do melhor amigo deles. Uma pessoa cuja casa frequentei em generosas festas. Que agregava gente, que me apresentou pra tanta gente que eu gosto e admiro tanto. Que enriqueceu a minha vida e de tantas outras pessoas. Um poeta (de verdade, um poeta de verdade).
É simplesmente incompreensível. Eu não entendo.
Poucas horas antes, ele se encontrara com os seus mais queridos amigos, esses mesmos que o carregaram pela ultima vez. O filho chamou o pai pra uma cerveja, e chamou os amigos, e ele estava feliz. A última imagem que seus amigos viram foi ele entrando num táxi. Poucas horas depois, jazia no chão da sala, fulminado por um ataque impiedoso em seu coração que já resistira, anos atrás, a quase 30 dias de UTI e uma bactéria que quase o venceu - este mês, que ele chama de um julho muito escuro, inspirara seu último livro de poesias.
Não consigo deixar de pensar que foi uma ultima noite bonita, feliz, do jeito que ele gostava - rodeado de amigos, de cerveja e de poesia.
Não entendo.
E como faz pra gente voltar a viver de novo, de verdade? A gente querer conquistas as coisas, querer trabalhar?
Não entendo.
Eu já perdi pessoas próximas. Uma delas eu gostava muito. Outras, com quem eu tinha laços sanguíneos mas que não eram exatamente pessoas que eu gostava, umas por não ter tido oportunidade de conhecer, outras porque simplesmente não eram mesmo próximas. Nunca vivi uma perda assim tão de perto. Tão inesperada. De uma pessoa tão querida. Nunca vi meus amigos tão machucados.
Não entendo. Não entendo o que o meu amigo estava fazendo ali deitado, imóvel. De terno - e ele nem gostava de terno. Porque que é que enterram as pessoas com roupas que elas não gostam de usar? Estava muito calor. Ele estaria mais feliz com uma calça branca, uma camisa mais folgada, uma sandália no pé.
Na hora da cremação, quando terminou a última música, tive vontade de aplaudir. Aplaudi-lo por sua vida rica de afeto e de poesia. Não tive coragem. Depois, perguntei, e vários amigos tiveram vontade de fazer o mesmo. Ninguém teve coragem.
Como somos bestas.
Qrda Emília:
ResponderExcluirComo podemos entender o que não conhecemos, nem integrámos nunca? Ninguém nos ensinou a viver uma vida plena, feliz e verdadeira da qual a morte é, evidentemente, parte integrante.Sabemos (sabemos?) que se há algo absolutamente certo na vida desde o instante em que nascemos é a morte e, contudo, vivemos como se fôssemos eternos. Ou seja, não ligando para a maravilhosa benção que é cada dia que no final de cada noite nos é oferecido, nem cada noite que ganhamos no fim de cada dia!
A morte, como a velhice e a doença são-nos sistematicamente escondidas e sonegadas. Na Idade Média, por exemplo, quando a morte era considerada o «início da verdadeira vida», todos se despediam de quem ia «partir» e acompanhavam-no (as crianças na fila da frente) nessa passagem...Porque é a morte que dá sentido à vida.
Claro que dói, perdermos quem amamos. Como podia ser de outra forma? Por isso também em algumas zonas de África, onde estive, os funerais demoram dias, Todos os familiares e amigos se reúnem, comem juntos e bebem juntos, cantam e choram, e conversam muito e abraçam-se e beijam-se e voltam a comer e a beber e a cantar. FAZEM O LUTO. Juntos.
E depois, qrda Emília, a mim parece-me que esse seu amigo teve uma vida boa, preenchida e feliz. E talvez nem tenha dado conta de que morreu, ou pelo menos não sofreu muito. Por isso tiveste tanta vontade de bater palmas de alegria e gratidão... pelo que a vida dele te deu. O que não parece permitido, mas devia ser.
Concentra-te muito em cuidares de ti e agora desta tua dor. Dedica-te com carinho a curar esta e outras perdas já que a morte é sempre A PERDA maior. Reúne os teus amigos e lembrem tudo de bom que este teu amigo viveu e vos deu. Falem dele e do sofrimento de cada um de vós, se puderem. Mas foca-te sobretudo em todos e em tudo o que a vida te tem dado de bom.
Bj grande
Olha, superei com uma ajudinha da sociologia. Espero que te console tbm: http://haikaiverde.blogspot.com.br/2013/08/perdas.html
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