Páginas

20 outubro 2005

Peruada

Pra quem não sabe, Peruada é(era) a festa São Franciscana mais famosa e (outrora) democrática que há(houve). Tudo começa(va) com o Grito do Peru, na quarta-feira imediatamente anterior, em que a clássica bandinha uniformizada toca(va) marchinhas para embalar os estudantes do Largo. A Sala do Diretor é(era) invadida, e os alunos vão(iam) passando de sala em sala, interrompendo e invadindo as aulas e chamando os demais para a bagunça. No meio disso tudo, Vitão ("Rei,rei,rei, Vitão é nosso Rei!"), com roupa de mesa branca, ou sei lá eu que tipo de roupa é(era) aquela, gira(va) e exibe(ia) o pobre Peru bêbado para todos [o bicho de vez em quando dá(va) umas batidas de asas revoltada, tenta(va) escapar, inutilmente - até o olho de alguns já tentou furar - eu mesma vi].
A festa do Grito rola(va) a noite inteira no porão e na Sala dos Estudantes, com música e bebida de graça.
Na sexta de manhã, muitos depois de passar a noite na Faculdade misturando a famosa pinga com groselha e outras coisas docinhas e palatáveis, começa(va)m a chegar os fantasiados. Coisa mais estranha: piratas, enforcados, bombons sonho de valsa, tubo de pasta de dente, havaianas e outros mais tradicionais circulando pelo centro em plenas 9 da manhã. A bebedeira geral começa(va) muito cedo, e ao meio-dia já tem(tinha) gente caindo pelas Arcadas, a velha e sempre nova Academia.
O desfile começa(va) ao meio-dia, com trio elétrico pelas ruas do centro. A festa é(era) democrática, qualquer um pode(ia) participar. Basta(va) se juntar ao grupo de malucos fantasiados e passar pela Líbero Badaró, Municipal, Ipiranga, São João, São Luis, Câmara Municipal (com direito a parada para vaias) e, finalmente, o Panteão, monumento magistral, o Fórum João Mendes, onde se rala(va) todo dia e se gasta(va) muita sola de sapato. Muita gente interrompe(ia) a caminhada no meio do caminho, havendo alguns que sequer conseguem(iam) sair do Largo. Outros se perde(ia)m, confundindo a São Luis com a São João. Alguns (reza a lenda) ainda se esbarra(va)m em algum(a) mendigo(a) ou passante mais fofo(a), mais arrumadinho(a), e fica(va)m por ali mesmo curtindo um chamego. Há quem caia(ísse) amparado pelos amigos, outros simplesmente cae(ia)m, sem mais. Amigos faze(ia)m cerco em torno de namoradas de outros amigos para impedir um possível estupro ou rapto consentido.
O que acontece(ia) ali é(era) lenda. É(era) um grande pacto de libertinagem em que, se não houver(sse) prova, é porque na verdade não aconteceu.
Chegando, finalmente, ao João Mendes, os meninos (e umas moças corajosas) escala(vam) bravamente suas grades, chegando até mesmo às primeiras janelas. Rapazes MUITO bêbados escalando desprotegidos. Polícia tentando proteger o Fórum. Mais polícia e cassetetes tentando proteger o Fórum. Mais polícia ainda, pancadaria nos meninos, tudo para proteger o Fórum. Ou para proteger-se da responsabilidade. Para não deixar que os meninos se machuquem(cassem), porrada neles!!!!!
Fim de festa. No porão(XI de Agosto), quando a gente chega(va), a Peruada (comida) já acabou(ara). Nem cheiro de peru. Alguns dormem(iam) boquiabertos pelas Arcadas, embalados pelo álcool e pelo cansaço. *

*houve um tempo em que foi assim. Hoje, a festa virou uma coisa estranha: o Grito virou um Sussuro, e a cervejada é fora da faculdade, com cerca pra proteger os alunos. A concentração nas Arcadas acabou, e a Peruada sai de um cinema decadente do centro, e não mais do Largo. Tem 'abadá', e é paga. Tem corda. Exclui. É como o Carnaval de Salvador. Democrática, política? Em tempos de Marchi, acabou-se a espontaneidade. Sinal dos tempos. Em breve, falaremos da Peruada somente no pretérito mais que perfeito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário