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25 janeiro 2005

Tolerância

Enrolei, enrolei, e vim pra Botucatu passar uns 3, 4 dias. Ao comentar com um amigo, espantou-se: ‘não consigo ficar mais de 6 horas seguidas junto com a minha mãe! Saio de lá tão culpado!’ Imagino meu amigo entrando altivo, perto da hora do almoço, abraçando e beijando sua mãe; lá pelas 5 da tarde, ao se despedir, vemo-lo curvado, mais baixo, quase em frangalhos.
De um terceiro, tive a oportunidade de ouvir na secretária eletrônica: ‘oi, filho, ainda não morri, viu?’ ‘Ela me chantageia’, lamenta o “filho ingrato”, que imediatamente telefona, avisando que irá para o almoço dentro de trinta minutos.
Serão todas as mães assim, chantagistas profissionais? Não importa a nacionalidade, a raça, a cor, a altura ou o peso?
Eu e a minha temos prazo de tolerância: 48, no máximo 72 horas é o quanto dá pra passar juntas sem que as pequenas implicâncias e lamentos virem briga de verdade. Ou seja, é o meu prazo de tolerância, de agüentar sem responder rosnando ou latindo à provocação. E o dela, de não transformar um pequenino contratempo em motivo para choro e para a repetição, over and over again, da ladainha ‘a gente faz tudo por vocês, você deve me odiar muito mesmo, não sei o que fiz para merecer isso’.
Temo, temo tanto ser uma dessas mães... Talvez seja inevitável, inerente à condição de abandonada, porque crescemos e batemos asas do ninho. Não nos podem controlar, não nos podem acariciar, como faziam quando éramos pequeninos.
Esquecem-se as mães que os filhos não são extensões suas, mas seres humanos outros, completos e diferentes. Parecidos, sim, às vezes bem mais do que gostaríamos, mas ainda assim diversos... e que precisam buscar a sua vida, o seu mundo, o seu prazer.
Não se vive pelo outro. Nem para o outro. Talvez (que pretensão a minha!) seja essa a lição.

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