Querida amiga,
No final do ano passado eu li no site do Quiroga a seguinte frase, que passou 2009 inteiro como proteção de tela no meu computador: “Antes de o ano terminar e, em nome de realmente acontecer um novo a partir da semana que vem, sua alma faria bem perdoando a tudo e a todos. Perdoar desamarra o passado e produz o vácuo da liberdade, a partir do qual tudo pode acontecer.”
Curiosamente, pouco tempo depois – vejo agora que foi em janeiro desse ano – você me escreveu. Eu sabia que tinha tudo a ver com a frase aí em cima, eu sentia essa sensação, porém eu não conseguia encontrar as palavras certas para responder. Alguém me sugeriu mandar simplesmente uma mensagem diplomática, mas não é do meu feitio. Por isso, silenciei.
Só hoje, enquanto lavava o rosto antes do ritual noturno de cremes anti-sinais, é que - vai saber em que intrincados labirintos em algum canto do meu cérebro andava metida – chegou a resposta. Pode ter algo a ver com o filme que vi logo antes, ou não. “Mais estranho que a ficção”, vale a pena ver, se ainda não viu. Cumpre, então, responder. Afinal, o ano já está acabando.
Dentre os muitos ganhos que tive em minha vida nos últimos anos, acho que o maior deles foi o de adotar uma filosofia que tem sido chamada pelo povo de zecapagodinhowayoflife, mas sobre a qual Buda já falava, de modo mais sofisticado, há sabe-se lá quantos mil anos: deixo a vida me levar. Desde que passei a ‘viver a vida’, tentando não nadar contra a corrente e não forçar momentos, situações, ou seja, ser mais verdadeira (principalmente) comigo e com os outros, as coisas ficaram bem mais fáceis. Não é sempre agradável, claro, mas amadurecer tem suas vantagens: a gente se trata melhor e se respeita mais.
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No meu atual jeito zecapagodinho de viver (cheia de referenciais-clichê-noveladasoito), acho que, se um dia, as circunstâncias, as coincidências, o destino, as sincronicidades ou qualquer que seja o nome dessas decisões pequenas ou grandes que, a cada momento, determinam o rumo da nossa vida, gostemos ou não, enfim, se esses caminhos desconhecidos que tomamos acharem por bem se cruzar novamente, se nossas canoazinhas atracarem num mesmo atracadouro, ou simplesmente deslizarem lado a lado durante certo tempo, eu terei sincero prazer em compartilhar(mos) esses momentos. ‘Perdoar desamarra o passado e produz o vácuo da liberdade, a partir do qual tudo pode acontecer’.
Espero que compreenda que não estou falando em “perdoar vc” ou sobre ações específicas, mas simplesmente em aceitar e superar o passado, em abrir esse espaço no corpo e na alma para o novo. Estou falando, claro, não só pra vc, mas também (e talvez principalmente) para mim mesma. Como House no episódio de abertura da nova temporada, instead of trying to fix it, it’s better to let it go.
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